terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A LUZ

Escutei as confidências da sombra,
a voz emudecida do poço,
afoitei-me por caminhos esboroados,
o céu rastejante.

Abundância de indícios e lugares
impiedosos conheci
- eis-me, inteiro, de regresso,
sem imposições, sem mãos servis
à casa restaurada
sobre novas fundações.

Ainda mais reveladora é decerto a luz
quando a vislumbramos a partir
de um horizonte soturno.
JORGE GOMES MIRANDA 81965) Requiem

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

GOSTARIA...

GOSTARIA de viver adormecido
no brando rumor da vida.

SANDRO PENNA (1906 – 1977) - No Brando Rumor da Vida (tradução de Maria
Jorge Vilar de Figueiredo)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O JOVEM CAVALEIRO BRANCO

A tentação
Lançaremos as nossas montadas
a toda a força, a toda a brida.
Vem construir um leito mais macio
para a tua amante, a tua senhora.
Esta noite penso ir visitar a minha amante
e possuí-la, a muito clara,
a transparente…

Ó tu, confio em ti
para me ajudares e socorreres.
Ouves-me? Partamos…

Então ele tomou-se de cólera,
porque a sua amargura era grande.
O sangue irrigou-lhe as faces
e o sangue do seu nariz
começou a fumegar de calor.
O orgulho
voou-lhe da nuca.
A altivez passou
como uma nuvem azul.
E começou a falar
com ira e amargura
e foi como um tiro de espingarda.

Palavras insultuosas.
Veneno da sua boca.
Negridão de lábios
sobre um de nada.
O mais vil dos devoradores de homens,
o mais debochado dos demónios.
Um demónio de mais baixo inferno.

MONGÓLIA, IACUTOS  * in Rosa do Mundo -  2001 Poemas para o Futuro (tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ENQUANTO...

ENQUANTO eu vir o sol doirar as folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
    Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso gradual da vida
    Entre ignorâncias destas?
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Metade do sentido ao entendimento
    E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza externa
Campos espalha, flores ergue, frutos
    Redonda, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
    E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
    Impropícia e profunda.
Sábio deveras o que não procura,
Que encontra o abismo em todas coisas
    E a dúvida em si-mesmo.

RICARDO REIS (FERNANDO PESSOA) (1888 - 1935) (edição de Manuela Parreira da Silva)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

NESTA ÚLTIMA TARDE...

NESTA última tarde em que respiro
a justa  luz que nasce das palavras
e no largo horizonte se dissipa
quantos segredos únicos, precisos,
e que altiva promessa fica ardendo
na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
senão em cada gesto e pensamento
e dentro destes vagos poemas;
e já todos me ensinam em linguagem simples
que somos mera fábula, obscuramente
inventada na rima de um qualquer
cantor sem voz batendo no teclado;
desta falta de tempo, sorte, e jeito,
se faz noutro futuro o nosso encontro.
E como, em noite parda, esse escritor demente
descobre no papel as formas do seu fim,
sem desistir de ti, ainda que as águas cubram
de escamas a mansa pele,
ao meu delgado corpo de ar sonoro
ato em nova aliança o antigo canto.


ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE (1944) - Uma Fábula

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O PASSADO...

O PASSADO
é barro
como o futuro

O presente
é água
como a morte
ADÍLIA LOPES (1960) - Dobra (Poesia Reunida 1983-2007)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ANIMAIS DE FOGO

Um dia
o homem é posto à prova, interrogado
pelas areias moventes;
desaba sobre ele a tempestade
que o quer afogar.
Cautela com os animais de fogo!

Passou o tempo da viola.
Também não aceito cantar as Índias
mentirosas. Segue carta
explicando como a paz começas.

Há sempre um barco para embarcar,
um pé de videira para a sede.
No ano mais desabrigado da minha vida
não posso deixar que a tristeza
sujeite estes versos. Não quero deixar.

Eu estou quase a nascer outra vez
após alguns tropeços e febres malignas,
estou ma margem florida do meu continente.

Não posso, não quero, não me vou deixar
transformar num poeta azedo.

FERNANDO ASSIS PACHECO (1937 - 1995) - A Mesa Irregular