terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ST. VALENTINE’S DAY

Rose are red
Violets are blue
Love is gold
To the happy few

ADÉLIA LOPES (1960) – Dobra (Poesia Reunida 1983-2007)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A FRUTARIA

Atravessou a longa avenida às onze da manhã,
estava Sol no passeio oposto, mas não lhe apeteceu
apanhar Sol, nem havia passadeira por perto
e os táxis andavam rápido, de um lado para o outro.

No quiosque demorou-se a olhar as capas das revistas,
lá estavam as que comprava sempre, uma era semanal,
as outras duas mensais. Depois viu os filmes pendurados,
vagamente percebeu que eram de ação, não gostou das capas,
eram escuras e mostravam carros aerodinâmicos em voo
e atores em poses marciais, num fundo de atrizes talismã.

Acabou por levar um jornal diário para a esplanada,
escolheu uma mesa à sombra, acendeu um cigarro,
sabiam-lhe sempre bem os cigarros de manhã,
pediu um café e uma garrafa de água mineral
e dispôs-se a ler de perna cruzada, levemente
recostado na cadeira, o cigarro a arder entre os dedos.

Agora eram os autocarros que travavam para estacionar
nas paragens repletas, uma de cada lado da avenida.

Tinha que passar pela frutaria, mas deixou-se ficar
mais um pouco, acabou de folhear distraidamente
o jornal, fechou-o e dobrou-o como fazia sempre
e pousou-o no tampo da mesa, junto da chávena vazia,
da garrafa aberta, do copo ainda cheio dessa água
tão fresca, de que gostava tanto pela manhã.

Já passava do meio-dia quando resolveu levantar-se,
tinha mais vida do que ficar simplesmente ali
a olhar os passeios, sem os ver, as árvores frondosas,
as fachadas antigas dos prédios de rendimento,
silvos, bicicletas, pessoas, sacos de plástico e cães
e o empregado muito veloz de bandeja em riste
e senhoras idosas muito pintadas e grupos de velhotes
e adolescentes de mochila e pedintes sem-abrigo
e sem os ver, atravessou a rua, com o jornal ainda
dobrado debaixo do braço, dirigiu-se para a frutaria.

JOSÉ MANUEL FERREIRA LOPES (1955) - inédito

domingo, 12 de fevereiro de 2012

POEMA

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto   tão perto   tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.
  MÁRIO CESARINY - Pena Capital

sábado, 11 de fevereiro de 2012

E A ROSA...

             E A ROSA cresceu enquanto eu dormia.
E as cortas tremidas de música,
Caprípede, os ramos perdidos sob os pés;
Nós aqui na colina, com as oliveiras
Onde pode um homem carregar seu remo,
E o bote lá na enseada;
Como tivéssemos ficado ali no Outono
Sob a tapeçaria, ou parede pintada tal tapeçaria,
E acima com um jardim de roseiras,
Som subindo de rua transversal;
Como tínhamos lá permanecido,
Observando o caminho da janela,
Fa Han e eu na janela,
E a sua cabeça ajustada com cordas de ouro.
Nuvem sobre montanha; fenda na colina, na névoa, como
                                                                                   um litoral.

EZRA POUND  (1885 – 1972) - Os Cantos (tradução e introdução de José Lino Grunewald)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

TRÊS CHAVES

                               Deus tem três chaves: a da chuva, a do
                        nascimento, a da ressurreição dos mortos.
                                                                                        (Talmude)

Três chaves.
Ter voltado, pelo menos, três vezes.

Em Atenas, ouvinte
de Sócrates. Ao longo das estradas
deixando epitáfios sobre a pedra
dos túmulos. Viver, ficar
de memória em memória.
E num relance
ter reencontrado os olhos de Ulisses.

Em Florença, contemplando
Botticelli, Leonardo, Miguel Ângelo.
Querer-lhes tanto
como à própria vida.
Pertencer àquelas casas,
ao chão. Ser água desse rio,
que me lavasse.

Em Lisboa, cartógrafo.
Desenhar o outro lado do mundo.
Amar como suas
as novas constelações.
E, pelo menos, ter ouvido
- dito por ele – um fulgurante,
atormentado soneto de Camões.

ANTÓNIO OSÓRIO (1933) – Casa das Sementes – Poesia Escolhida

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

SE EU PUDESSE DIZER-TE...

SE EU pudesse dizer-te: - Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de vtanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: - Vê se advinhas…
   Então um fértil jogo amor seria.
   Não este descerrar a mão vazia!

ALEXANDRE O’NEILL  (1924 – 1986) Poesias Completas (introdução e organização de Miguel Tamen)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ESTENDE A TUA MÃO...

ESTENDE a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quando aumenta o mundo.
HERBERTO HELDER (1930) – Ofício Cantante