quinta-feira, 8 de março de 2012

BERGTHORA

Enlouquecem-me as flores amarelas,
O Minnesang, Murnau,
A delicada fusão da casida com o sloka,
E tu.

LUIS ALBERTO DE CUENCA (1950) – Qual É a Minha ou a Tua Língua – Cem poemas de amor de outras línguas (organização de Jorge Sousa Braga)

quarta-feira, 7 de março de 2012

ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA DA MAÇA

À sombra desta árvore recente-
mente nascida só de imaginá-la
outra vez volto incorrigivelmente
e em antigas águas molho a fala

Saúdo as novas folhas como quem
nas folhas tem a vida permitida
Meta mente física consagrem
os poetas a termos vozes de partida

Loucura podre perto de Setembro
marmóreo mar em que a vista é adnunca
países confundidos não me lembro

da pátria que pariu cada lembrança
e cresce organizada na criança
madura mate mais maça que nunca.

RUY BELO (1933 – 1978) – Todos os Poemas

terça-feira, 6 de março de 2012

CONTÍNUA CORDILHEIRA

Música primeiro embalo no útero respiração da água
halos sonoros em movimento puro
júbilo agónico de sangue sistemático
desencadeada medida em lume organizado
movimento de ondas fisionomias longas
oferecem a espuma do sangue em copos de cristal
levanta-se fidelíssimo o ser da orfandade
e em materna cadência vai modelando os soluços
do luto de não ser já o ser no pleno seio
e em miseráveis veios em duras chamas lavra claras pedras.

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924) – inédito publicado no Jornal Público de 03.03.2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

A VIDA...

A VIDA ao longo dos séculos…
como uma estrela cadente
para lá do céu das ruínas gigantescas,
para lá das terras dos Caetani ou do Torlonia,
para lá das Tuscolane e das Capannelle do mundo ****
aquele gemido mecânico dizia:
a vida ao longo dos séculos…

E todos os meus sentidos o escutavam.

Acariciava uma cabeça desgrenhada e poeirenta,
desse louco que se tem de ter na vida,
com a forma que o destino quer,
e um corpo de potro ágil e terno
envolto na lona áspera de roupas que cheiram a mãe:
cumpria um acto de amor,
mas os meus sentidos continuavam à escuta:

[…]
PIER PAOLO PASOLINI (1922 – 1975) – poemas (tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

domingo, 4 de março de 2012

SE A CAMISOLA...

SE A CAMISOLA que tinha escrito Cuba
quisesse dizer alguma coisa, o meu olhar
ter-se-ia desviado, cheio de medo
de que sacasses da Bíblia vermelha.
Mas tinhas em vez disso palavras doces

e a paciência para me explicares a moda
actual. Ainda não tinha visto tudo:
nas cuecas a cara de Fidel de Castro.
Só coisas que já não querem dizer nada,
o que interessa é a roupa que te dispo.

Amor é de todas a palavra mais fácil,
mostra-se num dia e desaparece no outro.
Quem diz que não é assim, lá sabe.
E, de facto, há casos em que as emoções
duram sempre, até comove sabê-las.

Aproveita tu então este momento
e não te importe que eu não tenha opiniões.
Podes ser de esquerda, direita
e troca-o-passo: só importa que procures
a cruz do centro no centro.

HELDER MOURA PEREIRA (1949) – Mútuo Consentimento

sábado, 3 de março de 2012

CEGAS...

CEGAS luzes conhece de escassez
a nudez que desprende
do corpo devagar a claridade
das chamas desoladas
GASTÃO CRUZ (1941) – Outro Nome, Escassez, As Aves