quinta-feira, 15 de março de 2012

PARA OS ESPIRROS

Boupsayi! Boukhwari! Peço-vos! Nada tenho contra vós!
Ficai a meu lado e deixai-me espirrar!
Concedei-me o sono e dai-me a vida para poder seguir o meu caminho.
Para que possa encontrar um antílope.
Para que eu possa trazê-lo aos ombros.
Ou que eu possa ir matar <ndlopfou bou kéné>, um elefante.
E por agora chega, nariz meu.

BANTU – ÁFRICA DO SUL  in Oração dos Homens - Um antologia das tradições espirituais
(apresentação, selecção e tradução de Armando Silva Carvalho e de José Tolentino de Mendonça)

quarta-feira, 14 de março de 2012

O PORTO DAS PEDRAS RUBRAS

1
Não relembro o mar mas só a escarpa
De onde emitiam os olhos
As figuras.
Parti por Agustina e levava sol
Como pedra no bolso
E o nevoeiro na boca como lodo cinzento.
Perdido no mar então ignoto da cidade, de pé
Um monumento, alto, rotundo,
Serviu-me de farol.

Em viagem de núpcias adolescentes
Não se vai por Calígula
Nem por nada.
Havia outros mantos de chuva; outros mosteiros
No Douro; outras crianças sujas como eu;
Outras marés industriais de vinho.

Existia outra embaixada.
Outro caminho.

ARMANDO SILVA CARVALHO (1938) – O que Foi Passado a Limpo

terça-feira, 13 de março de 2012

APOGEU

Quero aquela bolha
de ar, saída de uma torneira
a vazar a pertinência
de uma demência.

Quero aquela permanência
de paz, parida por uma mente
a esvaziar uma dorida
e clemente sabedoria.

Quero a totalidade do meu ser
pois sem o saber, em pedaços
se perdeu nos traços de um apogeu.
CARLOS SOUSA RAMOS

segunda-feira, 12 de março de 2012

AQUELES ...

Aqueles para quem a vida é simples
E para quem a verdade é transparente,
Passam como eventual crispação
Que, no rosto do lago, faz o vento;

Aqueles para quem, no saber das coisas,
As coisas são o que as coisas parecem,
Esses serão os chefes e os reis.
Os outros todos atrás permanecem.

Porque a vida é para quem a aceita
E a esperança para quem a gozar.
A fé é mesmo o único preceito
Pois que a fé, sendo alegria, é p'ra alegrar.

O restante é o vento e a brisa
E o que não cansa no movimento
Dos rios, dos ribeiros e dos mares.
E eis dos tristes seu divertimento.

FERNANDO PESSOA - Poesia Inglesa (edição e tradução de Luísa Freire)

domingo, 11 de março de 2012

O MEDO...

Todo o homem tem o seu medo que o dirige, a quem obedece.
O medo à morte faz o Herói.

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877 - 1952) - Senhora da Noite. Verbo Escuro ^(apresentação de Mário Garcia)

sábado, 10 de março de 2012

OS GUIZOS DA CARAVANA

Quando as chamas do poente me douram a cabeça, penso em ti.
Quando as neves eternas são de púrpura e ouro, penso em ti.
Quando a estrela derradeira chama pelo pastor, penso em ti.
Quando a lua lívida cora, penso em ti.
Quando não há mais nada, e eu penso em ti.

MONGÓLIA in Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro (tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

sexta-feira, 9 de março de 2012

1. INTRODUÇÃO

A água é insondável
quando a dureza do céu abraça todo
o astro;

a terra procura repouso,
na mais alta das montanhas;
energia que se sobrepõe `doçura
dos lagos e dos rios.

Pensamos a serenidade assim
aquosa e feminina;

e a tempestade, que desperta,
cobre-se de vento e de um ardor que penetra
a fundura antiga dos vulcões.

Nada parece inacessível ao homem sem fadiga:
o céu, a terra, a criação e os modos de tudo isto ser:
jogo, cálculo ou destino.

MANUEL AFONSO COSTA (1949) – Caligrafia Imperial e Dias Duvidosos