quinta-feira, 22 de março de 2012

O QUE É O misticismo?

O QUE É O misticismo? 
- O que de ser tratado misticamente
(misteriosamente),Religião, Amor, Natureza, Estado –
Tudo o que é eleito se relaciona com o misticismo. Se todos os Homens fossem par de amorosos, seria assim suprimida a diferença entre místico e não-místico.
A teoria de Hemsterhuis sobre o sentido moral. – As suas conjecturas sobre a perfectibilidade deste sentido e a infinita possibilidade do seu uso – Ética filosófica – Ética poética.
A Beleza e a Moralidade são quase como a nluz e o calor no mundo dos espíritos. É através do seu exacto conhecimento – as suas afinidades, as suas analogias – tal com o conhecimento científico do mundo das estrelas - que se poderá estabelecer e desenvolver o conhecimento do mundo dos espíritos.
Será que o misticismo mata a razão?

NOVALIS (1772 – 1801) Fragmentos de Novalis (selecção, tradução e desenhos de Ruy Chafes)

quarta-feira, 21 de março de 2012

QUE NÃO

QUE NÃO há nenhuma tecnologia paradisíaca,
mas com que estranheza se habita o mundo,
olhando de viés o outro lado das linhas,
onde se emaranha o nome profano que se inventa
como se fosse o inominável, movido,
oh inebriamento!
Miraculosamente até
Ao desastre da beleza
HERBERTO HELDER (1930) Ofício Cantante

terça-feira, 20 de março de 2012

ANÁLOGO começo...

Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo –
Falha no último tomo.

Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso,
O entreaberto haver
Diagonal a ser.

E interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.

Timbre do vespertino,
Ali, carícia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.

FERNANDO PESSOA, Poesia (1918-1930) (edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine)

segunda-feira, 19 de março de 2012

É VERDADE

É VERDADE que quase andamos como órfãos;
Temos o bem de outrora, mas anda não s sua cultura;
Contudo os jovens, tendo presente a infância.
Não são também estranhos em sua casa.
Vivem triplamente, tal como viveram também
Os primeiros filhos do Céu.
E não foi em vão que foi dada
A fidelidade à nossa alma.
Não apenas a nós, mas a vós também ela guarda,
E junto aos tesouros sagrados, às armas da Palavra,
Que nos deixastes a nós, os menos hábeis,
Ao vos apartardes, ó filhos do Destino,
Ó bons espíritos, aí estais vós também,
Muitas vezes, quando a sagrada nuvem envolve alguém,
Enchemo-nos então de assombro e não o sabemos interpretar.
Vós, porém, temperai-nos de néctar o sopro
E então exultamos muitas vezes ou abate-nos
Um pensamento, mas quando amais alguém em excesso,
Ele não descansa até se tornar um de vós.
Por isso, ó Bondosos, rodeai-me levemente
Para que eu possa ficar, pois muito há ainda a cantar,
Mas agora termina, em pranto de alegria,
Como uma lenda de amor,
O meu canto, e assim também me aconteceu
desde o princípio, com rubor e palidez.
E tudo assim acontece.

FRIEDRICH HOLDERLIN (1770 – 1843)  - Hinos Tardios (tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado)

domingo, 18 de março de 2012

RENOVO

Doentia, a primavera expulsou tristemente
O inverno, a estação da arte calma, o lúcido
Inverno, e este meu ser que um sangue morno inunda
De impotência se estira em um bocejo lento.

O meu crânio amolece em crepúsculos brancos
Sob o ferro em tenaz, como um túmulo antigo,
E eu, triste, eis-me a errar pelos campos seguindo
Um sonho belo vago, entre a seiva estuante,

Depois cedo ao odor das árvores, cansado,
Com a face a cavar uma fossa ao meu sonho,
E mordendo os torrões onde crescem lilases,

Aguardo, a abismar-me, o meu tédio a evolar-se…
- Entretanto o Azul, sobre a sebe e o alvor,
Ri das aves em flor ao sol a chilrear.

STÉPHANE MALLARMÉ (1842 – 1898) - Poesias (tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra)

sábado, 17 de março de 2012

QUE AINDA vejo...

QUE AINDA vejo, no tecto dos lares que
abandonei,
um insecto, uma teia, uma constelação,
e lá fora
as vinhas, o melro na anoneira,
os figos quando se desce para o mar,
os cactos floridos nas veredas do pai,
tudo o que serve ao verso magoado, aos seus
declives,
à sua água,
ao sangue que o percorre,

calem os punhais do homicida,
fechem a cor das trevas a sete chaves,
não pronunciem em vão o meu santo nome,
a palavra amigo,
a palavra órfão, maldito, mendigo,
todas as palavras que escrevo,

[…]
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA (1948) – Esta Voz É Quase o Vento

sexta-feira, 16 de março de 2012

CANTO DÉCIMO SEGUNDO

Se chove parece que a água te lava os ossos,
se vem tempestade chega-te aos ombros
uma enxurrada de gafanhotos que saltam.
A névoa apaga até os pensamentos
e permanecem velas acesas
ardendo no cérebro.

Duas ou três noites atrás a neve cobriu
as estradas e os campos
e pela madrugada eu e o meu irmão
avistámos grandes pegadas
de um estranho animal. Um urso?
Começavam nas primeiras casas da aldeia
e acabavam de repente no meio da praça
como se tivessem voado.

TONINO GUERRA (1920) – O Mel (apresentação e tradução de Mário Rui de Oliveira)