segunda-feira, 26 de março de 2012

TALVEZ

TALVEZ pesadas montanhas atravesse
por duros veios, sozinho com um mineral;
estou a tal profundidade, que não há fim que ver pudesse
nem distância: a proximidade é tudo o que acontece
e toda a proximidade é pedra, afinal.

Não sou ainda entendido em sofrimento,
por isso esta grande escuridão me empequenece;
mas se fores Tu: torna-te pesado, aparece:
que a tua inteira mão em mim tenha cumprimento
e eu em ti com o meu relicário sedento.

RAINER MARIA RILKE (1975 – 1926) – O Livro de horas (tradução e apresentação de Maria Teresa dias Furtado)

domingo, 25 de março de 2012

HOJE À NOITE...

HOJE À NOITE avistei sobre a folha de papel
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos

dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde e
as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais

não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar

ficou-me esta mão com a sua sombra de terra
sobre o papel branco… como é louca esta mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas

AL  BERTO ( 1948 – 1997) o Medo

sábado, 24 de março de 2012

DEIXARAM-ME...

DEIXARAM-ME só
no campo, sob
a chuva fina, só.
Olhavam-me mudos
admirados
os choupos desfolhados sofriam
com a minha dor: dor
de não saber claramente…

E a terra molhada
e os montes negros e altíssimos
calavam, vencidos. Era como se
a maldade de um deus
tivesse num só gesto
petrificado tudo.

E a chuva lavava aquelas pedras.

SANDO PRNNA (1906 – 1977) No Brando Rumor da Vida (tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

sexta-feira, 23 de março de 2012

NÃO HÁ...

Não HÁ jardineiro –
o jardim em liberdade
e por aparar.

SHIKI (1869 – 1902) Imagens Orientais (versão portuguesa de Luísa Freire)

quinta-feira, 22 de março de 2012

O QUE É O misticismo?

O QUE É O misticismo? 
- O que de ser tratado misticamente
(misteriosamente),Religião, Amor, Natureza, Estado –
Tudo o que é eleito se relaciona com o misticismo. Se todos os Homens fossem par de amorosos, seria assim suprimida a diferença entre místico e não-místico.
A teoria de Hemsterhuis sobre o sentido moral. – As suas conjecturas sobre a perfectibilidade deste sentido e a infinita possibilidade do seu uso – Ética filosófica – Ética poética.
A Beleza e a Moralidade são quase como a nluz e o calor no mundo dos espíritos. É através do seu exacto conhecimento – as suas afinidades, as suas analogias – tal com o conhecimento científico do mundo das estrelas - que se poderá estabelecer e desenvolver o conhecimento do mundo dos espíritos.
Será que o misticismo mata a razão?

NOVALIS (1772 – 1801) Fragmentos de Novalis (selecção, tradução e desenhos de Ruy Chafes)

quarta-feira, 21 de março de 2012

QUE NÃO

QUE NÃO há nenhuma tecnologia paradisíaca,
mas com que estranheza se habita o mundo,
olhando de viés o outro lado das linhas,
onde se emaranha o nome profano que se inventa
como se fosse o inominável, movido,
oh inebriamento!
Miraculosamente até
Ao desastre da beleza
HERBERTO HELDER (1930) Ofício Cantante

terça-feira, 20 de março de 2012

ANÁLOGO começo...

Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo –
Falha no último tomo.

Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso,
O entreaberto haver
Diagonal a ser.

E interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.

Timbre do vespertino,
Ali, carícia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.

FERNANDO PESSOA, Poesia (1918-1930) (edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine)