segunda-feira, 16 de abril de 2012

PARA TI

Oiço a tua voz
dentro desta sala
tão nua e beijo
os teus olhos
fugidios,
perdidos no sorriso
irónico,
que só tu sabes
porque o tens.

Vejo o teu vulto

esguio
em qualquer pintura,
os ombros,
os teus ombros,
sobretudo,
vejo-os no realismo
destas minhas
mãos
abertas,
vazias,
tão minhas
e tão sós.

Depois, tu,

ao longe,
serás luz
e cor,
serás tu
própria,
envolta já
no tule da noite.

Que me importa?


Se és tu,

tu mesma.

JOSÉ MANUEL FERREIRA LOPES (1955) – in O famoso Caderno

sexta-feira, 13 de abril de 2012

DE 13 (Sexta) A 15 (Domingo) DE ABRIL

Sexta-feira, 13.04.2012

ROMARIZ

Asseguro-vos que às vezes, de uma pessoa
sei que tive medo, e das demais…
Dir-me-eis que não fui ao mar para as salvar.
No oceano preferi ver o meu corpo, por trás da areia
a temeridade, adquirindo o matrimónio; as locuções, toques,
visões, a quietude dita três vezes pulmões de eternidade.

Bordando perto das sestas, ou seja, já em plena miséria
um corpo levante dinâmico, o parágrafo do mar:

Olha para o ventre-aquário! e diz ao vulto no tendão aparecido
agora é ao tempo, deste rosto, com por um outro,
cujo recém reparo se já inverte até ao ventre,
apesar de ungido nu e mudo a cada tempo.

Daqui desço às moradas, para retomar a minha forma humana.

ANTÓNIO POPPE (1968) – Torre de Juan Abad


Sábado, 14.04.2012

PRIMAVERA DAS FLORES NEGRAS

Primavera das flores negras, o que te impede
é a febre dos mortos,
Primavera das flores negras, o que te impede
é um vento contínuo do norte,
uma sepultura é meu Abril,
uma noite visionariamente sombria das flores negras,
são irmãs estranhas que para os campos te impelem,
quando os corvos grasnam
e as colinas bebem borrascas.

Primavera das flores negras, o que te impede
é a febre dos mortos,
Primavera das flores negras, o que te impede
é um vento contínuo do norte,
eu vou dormir, amanhã já
neve e solidão me hão-de cobrir atrás dos teus sapatos…
são irmãs estranhas que para os campos te impelem,
quando os corvos grasnam
e as colinas bebem borrascas.

THOMAS BERNHARD (1931 – 1989) - Na Terra e no Inferno (tradução de José A. Palma Caetano)


Domingo, 15.04.2012

BAIRRO JUDAICO

Em vaso incerto, a claridade

por isso aconselhavas
o caminho mais obscuro
histórias rarefeitas, impossíveis
a daquela mulher
do bairro judaico
que contava a sua vida
por um estranho calendário
de limões e enguias

previa a cada instante
seu próprio desaparecimento
e tem uma simplicidade aterradora
o nenhum peso da luz

tenho tanto medo
da nudez
esse nome final!
MÁRIO RUI DE OLIVEIRA (1973) – Bairro Judaico

quinta-feira, 12 de abril de 2012

COMEÇO

COMEÇO com os santos que cantam no fogo do céu,
Como no azulejo doirado da parede:
Deixem o fogo de Deus, entrem na dança
& façam-se os mestres cantores da minha alma.
Resgatem o meu ouvido, de instinto turvo,
Com um apenas esfumado acesso às coisas,
Um filho das trevas desta idade:
juntem-se ao artífice da eternidade.

M. S. LOURENÇO (1936 – 2009) - O Caminho dos Pisões

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A BORBOLETA

Contente mesmo contente
estive na vida muitas vezes
mas nunca como na Alemanha
quando me libertaram
e me pus a olhar uma borboleta
sem vontade de a comer

TONINO GUERRA (1920) Histórias para Uma Noite de Calmaria (tradução de Mário Rui de Oliveira)

terça-feira, 10 de abril de 2012

CRISTOVÃO COLOMBO

O que eu perco de vista hoje ao dirigir-me para leste é o que
                Cristóvão Colombo descobria dirigindo-se para oeste
Foi nestas paragens que ele viu um primeiro pássaro branco
                e preto que o fez ajoelhar e dar graças a Deus
Com tamanha comoção
E improvisar essa oração baudelairiana que está no seu diário
                de bordo
E onde pedir perdão de ter mentido todos os dias aos seus
                companheiros indicando-lhes uma posição falsa
Para que eles não pudessem achar a sua rota.

BLAISE CENDRARS (1887 – 1961) in Mesa de Amigos (versões de poesia por Pedro da Silveira)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

ARQUIPÉLAGO

ARQUIPÉLAGO:
ar que o habita, movimento, sal, abalo.
O barulho, o verbo.
Arqueja a folha onde se funda escrito.
Na linha dos trópicos arqueja de calor e velocidades de água:
e nas frias braças da natação a pique, a morte
submarina.
HERBERTO HELDER (1930) – Ofício Cantante

domingo, 8 de abril de 2012

PARA NINGUÉM


                Poemas sobre alguém simultaneamente real e imaginário. Não são mensagens, apenas versos um pouco absurdos na sua inútil clareza. Falam de quem, com quem, desconhece o que imaginei. Inutilidade maior das palavras assim agrupadas, dirigindo-se a quem não as conhecerá nem as poderá entender. Cartas para ninguém, que é alguém sob a verdade das imagens. Ignoro até que ponto é esta a realidade. Verdade, realidade, criei-as ou fui por elas inventado? Num exacto momento elas introduziram factos na minha vida. O poder da visão tornou-me real e levou-me a imaginar que éramos reais: alguém, não existindo com a existência que a minha mente lhe dera, estava diante de mim; e eu estava diante de alguém que via a minha visão e ignorava o que nela era a sua própria realidade.

GASTÃO CRUZ (1941) - Outro Nome, Escassez, As aves