quinta-feira, 3 de maio de 2012

OS INSTRUMENTOS DE TORTURA


Falo deste quarto    excessivo    o teu rosto iluminado por dentro do espelho, o sofá de plástico recostado na memória, a cadeira partida, um anel esquecido entre as poeiras do amor. E também o armário onde dormem, ainda, as roupas, as viagens, as cartas    e todos os sapatos de todos os percursos acumulados no tapete, o candeeiro do tecto sobrevoando a terra despida dos nossos corpos. E, depois, a cama de casal, por assim dizer, ineficaz, a cama estreita de prazer e, entre as duas, o esqueleto do mar, O copo vazio.
Falo, portanto, do silêncio    deste quarto.

MANUELA PARREIRA DA SILVA (1950) – O Álbum de Vishnu

quarta-feira, 2 de maio de 2012

OS TRANSEUNTES

Quando andamos a passear à noite por uma rua e um homem que já avistamos de longe – porque a rua à nossa frente sobe e há lua cheia – vem ao nosso encontro, não vamos agarrá-lo, mesmo que ele esteja fraco e esfarrapado, mesmo se vier alguém aos gritos atrás dele, mas deixamo-lo seguir o seu caminho.
Porque é de noite e a culpa não é nossa se a rua à nossa frente sob e há lua cheia. Para além disso, talvez aqueles dois só se estivessem a divertir com a perseguição, talvez ambos persigam um terceiro, talvez o primeiro esteja a ser perseguido injustamente, talvez o segundo queira matar o outro e nós seríamos cúmplices no assassinato, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada um vá para a cama por decisão própria, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
E por fim, não será que somos nós que estamos cansados? Não bebemos vinho a mais? Ficamos aliviados por já não ver também o segundo.
FRANZ KAFKA (1883 – 1924) – Parábolas e Fragmentos
(selecção, tradução e prefácio de João Barrento)

terça-feira, 1 de maio de 2012

POBRE DE MIM

Pobre de mim!
Por haver nascido
para a luz do mundo.

Pobre de mim!
Que me criaram
meu pai, minha mãe.

Pobre de mim!
Que a morte não veio
ao sugar o seu leite.

Pobre de mim!
Que a morte não veio
na idade do amor.
GALÊS – TRADIÇÃO ORAL (SÉCULO XVII) in
O Imenso Adeus – Poemas Celtas do Amor
(tradução de José Domingos Morais)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

RIO TURTUOSO

Tão longe o tempo pacífico em que passava o palanquim verde.
É estulto ouvir a canção de amor que um fantasma triste canta.
O carro dourado já não traz de volta a beleza que arruinava cidades.
Aonde o muro de jade quebra ainda a ondulação do parque
…Moribundo recordou Hua-t’ing, ouviu o grito das cegonhas… 
…Velho, temendo por uma casa real, chorou junto aos camelos ...
de bronze…
O céu desolado e a terra em discórdia, mesmo a ferida do seu coração
Destruído era mais leve que a dor da Primavera


LI SHANG-YIN  (812? – 858) - Chuva na Primavera e Outros Poemas
(selecção e tradução de José Alberto Oliveira)

domingo, 29 de abril de 2012

POR CIMA DO ATLÂNTICO

É uma pele azul com rugas leves
mais baixa do que as nuvens
algumas das quais, quase
privadas de espessura, são
levadas
por um provável vento

Tão distante
está este branco Atlântico tremente
na sua dúvida entre ser o espelho
do céu fictício ou folha simplesmente

Quando pra ver a água olho de novo
apenas uma enorme nuvem sob
a estreita asa
me recolhe os olhos
GASTÃO CRUZ (1941) – Rua de Portugal

sábado, 28 de abril de 2012

HÁ UMA antiga rosa...

HÁ UMA antiga rosa vermelha, aveludada, em cujo aroma
está presente o mundo da minha infância. Dir-se-ia que o vejo
desdobrar-se em paisagens, figuras humanas, gestos, vozes e
alegrias!
       Ó minha rosa eleita, quando te encontro, nas manhãs de
Abril, incendida cor, entre a verdura das folhas, o Anjo infantil
Que fui, estremece, no seu pequenino túmulo entreaberto;
Acorda, e contempla-me, sorrindo…

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877 – 1952) – Senhora da Noite. Verbo Escuro (apresentação de Mário Garcia)

sexta-feira, 27 de abril de 2012

GOMES LEAL

Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a amargura, a solidão…
Oito luas fatais fitam o espaço.

Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmblea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

Inúteis oito horas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!

Mas de noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura…
É a lua além de Deus, álgida e ignota.

FERNANDO PESSOA (1888 – 1935) Poesia 1918 – 1930 ( edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine)