segunda-feira, 14 de maio de 2012

NÃO PEÇO

NÃO PEÇO que o espaço à minha volta se engrandeça
peço
que a força do sangue na garganta
não a cerre toda: e eu sopre uma canção
biorrítmica
onde se encontre o ar – curta canção
gutural, obscura, rouca:
o sangue coalha numa posta
púrpura, sufoca o movimento da música,
mas peço
que escassa estria ainda se ouça.

HERBERTO HELDER (1930) – Ofício Cantante

domingo, 13 de maio de 2012

A YURTA

A YURTA de uma família bárbara (ano
após ano), sempre entre as ervas.
Estendem no Verão tapetes de feltro
Suspendem no Inverno mantas de pele.
Compreendê-los é bem difícil!
Cavalos pastam cada manhã nas colinas nuas.
Não os faremos sair destas arenosas marcas –
Haverá motivo então para se inclinarem diante das nossas
                mansões.
DUNHUANG (SÉCULOS V – X)
in Poemas Anónimos – Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos
(por Gil Carvalho)

sábado, 12 de maio de 2012

HORAS DE SPLEEN

Nesta cidade aborrecida e mona,
passo horas de spleen estiraçado…
sobre um divã, ouvindo um mau teclado,
ou rechinar monótona sanfona.

Lembra-me então a Infanta Magalona,
oiço os miaus de um gato num telhado,
sigo o zumbido de um mosquito alado,
- tomo haschich, morfina, ou beladona.

Mas nisto, rompe o sol a névoa aquática,
vem com capa de asperges ou dalmática,
toda doiro e rubins ensanguentados…

Quero então ser Grão Turco. – E, nas ventoinhas
das torres, empalar os alfacinhas,
- com crepes de chorões gatos pingados!

GOMES LEAL  (1848 – 1921)
Mefistófeles em Lisboa – e outros humorismos poéticos
(edição de José Carlos Seabra Pereira)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

AO MEU ABUTRE

      Este abutre voraz de cenho torvo
que me come as entranhas, carniceiro,
e é meu único, constante companheiro,
lavra-me as penas com seu bico curvo.

      No dia em que deva o último sorvo
Beber de meu negro sangue, requeiro
Que me deixeis com ele só fronteiro
Em momento, sem mais ninguém de estorvo.

      Pois quero fazer triunfo de agonia,
Enquanto ele os meus despojos traga,
Surpreender em seus olhos a sombria

olhada ante a ameaça da aziaga
sorte, sem ter em quem satisfazia
a fome atroz que nunca se lhe apaga.
                                                                              Salamanca, 26- X – 1910

MIGUEL DE UNAMUNO (1869 – 1936) – Antologia Poética
(selecção, tradução , prólogo e notas de José Bento)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CRIATURAS

CRIATURAS QUE se reproduziam em interstícios
que se deitavam em divãs
cada vez mais estreitos

a luminosa vocação, a luminosidade
de uma terra sábia e rotunda
suplantava aqueles gritos portadores
de uma defunta órfica voz

Eram as criaturas presas
do seu século
retraídas nos olhos mal afeiçoados

Filhos mais velhos a atentarem
em como o corpo incha e se perfaz a polpa
como o limite se delimita corpo a corpo
e engorda

Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta
e os mais novos sorriam como lábios.
LUIZA NETO JORGE (1939 – 1989) - Poesia

quarta-feira, 9 de maio de 2012

BUSCA-TE EM MIM

Alma, buscar-te-ás em MIM,
a Mim buscar-me-ás em ti.

      De tal sorte pôde o amor,
alma, em Mim te retratar,
que nenhum sábio pintor
sab’ria com tal primor
tal imagem estampar.
      Foste pró amor criada
formosa, bela, e assim
em meu coração pintada;
se te perderes, minha amada,
alma, buscar-te-ás em Mim.
      Pois Eu sei que te acharás
em meu peito retratada,
e tão ao vivo tirada
que, se te vês, folgarás
ao ver-se tão pintada.
      E se acaso não souberes
onde me acharás a Mim,
não vás daqui para ali.
Se não, se achar-me quiseres,
a Mim buscar-me-ás em ti.
      Porque és o meu aposento,
és a minha casa e morada,
e assim chamo em qualquer tempo,
se acho no teu pensamento
estar a porta fechada.
      Fora de ti, há-de buscar-me,
porque para achar-me a Mim
basta somente  chamar-me;
vou a ti sem demorar-me,
e a Mim buscar-me-ás em ti.

SANTA TERESA DE ÁVILA (1515 – 1582) - Seta de Fogo 
(tradução de José Bento)

terça-feira, 8 de maio de 2012

ENVOLVEI

Envolvei meu coração
Vós, ó neblinas da noite.
Cercai-me até sufocar,
Até me encher de aflição
Até cobrir e assustar.

Envolvei-me e convertei-vos
Na substância de mim
Que se sinta similar
A uma sombra e um lago,
A uma tristeza e um mar.

Algo que seja a imagem
De uma coisa sem imagem.

FERNANDO PESSOA, Poesia Inglesa (edição e tradução de Luísa Freire)