quinta-feira, 17 de maio de 2012

UM RIO SECO É COMO A ALMA

Um rio seco é como a alma
De um poeta que não pode escrever, embora conheça
Quase perfeitamente o tema e as mágoas
Da morte ressequida como o estio. Mas o que queria,
E foi outrora um mar puro do mais puro cristal
Recua, torna-se sombrio como arbustos amoniacais, como as
                Folhas antigas do amor,
E abandona o pensamento. Não imagina
Nada que o possa substituir: só no pólo
Da memória oscila uma absurda bússola.
Por isso o rio, entre as lamentáveis árvores sombrias,
É uma agonia de pedras, de horrores submersos
Agora revelados, descoloridos. Por isso existem estas,
Estas pedras, estas ninharias
Quando o rio é uma estrada e a mente um vazio.

MALCOLM LOWRY (1909 – 1957)
As Cantinas e Outros poemas do Álcool e do Mar
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

SALMO XVII DE ""HERÁCLITO CRISTIANO""

      Os muros da pátria onde vivia,
sendo ante fortes, já desmoronados,
da corrida do tempo vi, cansados
por quem se abate a sua valentia.
      Saí ao campo: vi que o sol bebia
os regatos do gelo desatados,
e do monte lamentosos os gados,
que com sombras furtou a luz ao dia.
      Entrei em casa; vi que, profanada,
da antiga habitação era despojos;
meu cajado, mais curvo e menos forte;
      vencida pelo tempo a minha espada.
Não achei cousa onde pousar os olhos
que não fosse lembrança só da morte.
FRANCISCO DE QUEVEDO (1580 -1645)
in Antologia da Poesia Espanhola do <<Siglo de Oro>> - Barroco
(selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento)

terça-feira, 15 de maio de 2012

CORROMPO MAS...

Corrompo mas ilumino. Sou a Estrela Brilhante e da Manhã –
frase, por sinal, que já foi duas vezes aplicada, não sem critério ou
entendimento, a outro que não parece eu.

FERNANDO PESSOA – A Hora do Diabo
(edição de Teresa Rita Lopes)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

NÃO PEÇO

NÃO PEÇO que o espaço à minha volta se engrandeça
peço
que a força do sangue na garganta
não a cerre toda: e eu sopre uma canção
biorrítmica
onde se encontre o ar – curta canção
gutural, obscura, rouca:
o sangue coalha numa posta
púrpura, sufoca o movimento da música,
mas peço
que escassa estria ainda se ouça.

HERBERTO HELDER (1930) – Ofício Cantante

domingo, 13 de maio de 2012

A YURTA

A YURTA de uma família bárbara (ano
após ano), sempre entre as ervas.
Estendem no Verão tapetes de feltro
Suspendem no Inverno mantas de pele.
Compreendê-los é bem difícil!
Cavalos pastam cada manhã nas colinas nuas.
Não os faremos sair destas arenosas marcas –
Haverá motivo então para se inclinarem diante das nossas
                mansões.
DUNHUANG (SÉCULOS V – X)
in Poemas Anónimos – Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos
(por Gil Carvalho)

sábado, 12 de maio de 2012

HORAS DE SPLEEN

Nesta cidade aborrecida e mona,
passo horas de spleen estiraçado…
sobre um divã, ouvindo um mau teclado,
ou rechinar monótona sanfona.

Lembra-me então a Infanta Magalona,
oiço os miaus de um gato num telhado,
sigo o zumbido de um mosquito alado,
- tomo haschich, morfina, ou beladona.

Mas nisto, rompe o sol a névoa aquática,
vem com capa de asperges ou dalmática,
toda doiro e rubins ensanguentados…

Quero então ser Grão Turco. – E, nas ventoinhas
das torres, empalar os alfacinhas,
- com crepes de chorões gatos pingados!

GOMES LEAL  (1848 – 1921)
Mefistófeles em Lisboa – e outros humorismos poéticos
(edição de José Carlos Seabra Pereira)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

AO MEU ABUTRE

      Este abutre voraz de cenho torvo
que me come as entranhas, carniceiro,
e é meu único, constante companheiro,
lavra-me as penas com seu bico curvo.

      No dia em que deva o último sorvo
Beber de meu negro sangue, requeiro
Que me deixeis com ele só fronteiro
Em momento, sem mais ninguém de estorvo.

      Pois quero fazer triunfo de agonia,
Enquanto ele os meus despojos traga,
Surpreender em seus olhos a sombria

olhada ante a ameaça da aziaga
sorte, sem ter em quem satisfazia
a fome atroz que nunca se lhe apaga.
                                                                              Salamanca, 26- X – 1910

MIGUEL DE UNAMUNO (1869 – 1936) – Antologia Poética
(selecção, tradução , prólogo e notas de José Bento)