segunda-feira, 28 de maio de 2012

(SL.23)

O senhor é meu pastor: nada me falta,
em verdes pastos me concede repousar,
às fontes tranquilas Ele me leva
e repara minhas forças,
a senda dos caminhos justos me aponta
pela honra do seu nome.

Ainda que desça por uma terra de sombra
nenhum mal receio, contigo junto de mim
- como dizer que tua vara e teu cajado me protegem

É meu festim que preparas
à frente dos inimigos
derrames em minha cabeça o perfume,
ergo minha taça transbordante.

Tua bondade e lealdade acompanham
o tempo da minha vida,
minha morada seja a tua morada, Senhor,
por dias que não terminam.

ISRAEL – LIVRO DOS SALMOS
in  Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro
(tradução de José Tolentino Mendonça)

domingo, 27 de maio de 2012

DAS COISAS QUE COMPETEM AOS POETAS

Nas terras onde os sinos andam pelas ruas
há horas surdas sós e sem cuidados
há mar condicionado ao possível verão
e vendem-se manhãs e mães por três ideias
Nas terras onde a música é o fogo de artificio
a camioneta curva a carga sob os plátanos
e à sombra dos lacrimejantes carros
o gato dorme a trepadeira sobe
o soba grita nunca ninguém sabe
a erva cresce a as crianças morrem
O mar aceita chão a mão do sol
Que plural deplorável o da magna agência mogno
E nas tílias há riscos dos vestidos de retintas raparigas
e o dente resistente número quarenta cheira a Pepsodent

RUY BELO (1933 – 1978)
Todos os poemas

sábado, 26 de maio de 2012

UMA DAS FORMAS

UMA das formas de saúde é a doença. Um homem
perfeito, se existisse, seria o ser mais anormal que se
poderia encontrar.
FERNANDO PESSOA (1888 – 1935)
Aforismos e Afins
(edição  e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A PERFEITA HARMONIA

Maio é o tempo da perfeita harmonia.
Trajado de negro, mal rompe a luz
O melro canta uma canção de clara alegria.
Nos campos se abraçam as flores e as cores.

O cuco saúda o verão majestoso com galhardia.
Passou o tempo dos dias ruins, a brisa é doçura.
No bosque as árvores de folhas se vestem
E se foram nuas agora são sebe de verde espessura.

O verão vem chegando e corre sem pressa a água no rio.
Manadas ligeiras nas águas mansas a sede saciam.
Na encosta dos montes se espalha o azul do cabelo da urze
E frágil e branca se abre a flor do linho silvestre.

A pequena abelha, de fraco poder, carrega em seus pés
Rica colheita oculta em flores. O gado pasta na erva tenra
Dos verdes prados. Na sua tarefa não há fadiga:
A formiga vai e depois vem para logo ir e nunca parar.

Nos bosques a harpa tange melodias, música de paz
Que acalma a tormenta que o lago agitara.
E o barco balouça de velas dormidas
Envolto na bruma da cor das flores do tempo de Maio.

AUTOR DESCONHECIDO (SÉCULOS IX – X)
in A Perfeita Harmonia – Poemas Celtas da Natureza
(tradução de José Domingos Morais)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

NEM COM outrem

NEM COM outrem nem por ti somente
cometas jamais acção de que
envergonhar-te possas.
E acima de tudo respeita-te
a ti próprio.

A justiça em actos e palavras
pratica-la-ás depois.

Pela menor das coisas não te habitues
a decidir-te sem reflectir.

PITÁGORAS ( SÉCULO VI  A.C.)
Versos de Ouro ( tradução de José Blanc de Portugal)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

EM ATROZ mágoa

                EM ATROZ mágoa choro todo o dia;
quando ela cresce mais, cresce meu pranto;
a mágoa não, porque chegou a quanto
cruel fortuna ou fado injusto envia.
                A noite chega e penso que encobria
meu mal o dia ou que jamais foi tanto;
dobro o chorar e caio, entretanto,
sem o vigor que em pé me conduzia.
                Ali meus olhos lacrimosos cobre
amargo sono e, bem que o pranto cessa,
a mágoa faz crescer sonho tão triste.
                Corto-o e ele volta; nisto o sol descobre
seu rosto e banho o meu aqui na espessa
chuva com que, cruel Fílis, me aspergiste.

FRANCISCO DE FIGUEROA (1536? – 1617?)
in Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX
(selecção, organização, tradução, posfácio e notas de José Bento)

terça-feira, 22 de maio de 2012

21.05.2012 (a sete meses do fim)

O dia está chegando ao fim
E dou por mim, enfim
Pensando descansar de uns tempos
Perturbados por nebulosos ventos.
E o que vejo?
Os seres se viram de costas
Num rodopio incessante
De turbulentas voltas.
Se calam no fomento
De um silêncio surdo
Ruidosamente mudo.
Olham sem querer
Desviando logo o desconforto
E assim
Ninguém arriba a bom porto.
Abrem caixas atrás de caixas
Pensando
Diamantes encontrar.
Se perdem no labirinto
Da ética perdida
Aceitando o faminto
que lá se fixa.
Se cobrem de miséria
Ocultando o que à vista está
Não sabendo
que deixam sempre uma pista.
E transformam o mundo
No inferno, esquecendo
Que no fundo
Ele por eles está à espera.

E eu, na minha cabeça
A mão tremendo
Rejubilando pela rixa
Que me pedem
Vou à luta.
Mas, e o meu coração?
O meu coração
Pleno de emoção
Enchendo de comoção
Sofre… e chora.
Carlos Sousa Ramos (1956) – inédito