segunda-feira, 11 de junho de 2012

BIC CRISTAL

BIC CRISTAL preta doendo nas falangetas,
papel sobre a mesa,
a luz que vibra por cima, por baixo
a cadeira eléctrica que vibra,
e é isto:
electrocutado, luz sacudida no cabelo,
a beleza do corpo no centro da beleza do mundo:
pontos de outro nas frutas,
frutas na luz escarpada,
clarões florais atrás de paredões de água,
água guardada no meio das fornalhas
- isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica,
entra a corrente por mim adentro e abala-me,
e com perícia artífice deixa no papel
o nexo estilístico entre
o terso, vívido, caótico e doce:
e o escrito, o carbonífero, o extinto,
o corpo
HERBERTO HELDER (1930)
Ofício Cantante

domingo, 10 de junho de 2012

PENSAMENTOS

PENSAMENTOS, que agora novamente
Cuidados vãos em mim ressuscitais,
Dizei-me: ainda não vos contentais
De terdes quem vos tem tão descontente?

Que fantasia é esta, que presente
Cada hora ante meus olhos me mostrais?
Com sonhos e com sombras atentais
Quem nem por sonhos pode ser contente?

Vejo-vos, pensamentos, alterados
E não quereis, de esquivos, declarar-me
Que é isto que vos traz tão enleados?

Não me negueis, se andais para negar-me;
Que, se contra mim estais alevantados,
Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.

LUÍS DE CAMÕES (1524? – 1580) – Sonetos de Luís de Camões
(escolhidos por Eugénio de Andrade)

sábado, 9 de junho de 2012

NUNÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
FERNANDO PESSOA (1888 – 1935) – Mensagem
(edição de Fernando Cabral Martins)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

PORTUGAL

PORTUGAL é a Paisagem e a Saudade.

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877 – 1952)
Senhora da Noite, Verbo Escuro (apresentação de Mário Garcia)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

PASTORAL

Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos mais pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeira, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construídos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja patina
me agrada mais
que qualquer cor.

                   Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.

WILLIAM CARLOS WILLIAMS (1885 – 1963) – Antologia Breve
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

SOBRE O CAMINHO

Nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra.

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença.

Não colecciones dejectos o teu destino és tu.

Despe-te
Não há outro caminho.
EUGÉNIO DE ANDRADE (1923 – 2005)
In A Perspectiva da Morte 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX
(selecção e prefácio de Manuel de Freitas)

terça-feira, 5 de junho de 2012

SORRI

Quando olhas em frente
E nada está na tua mente
O que te faz parar
E não querer ficar
Pois tens medo de procurar
Com um ao lado olhar
Quem te possa resolver
Essa sensação de não ter

Sorri
Pois estarei ao teu lado
E porque vi
O que ainda não está acabado

Quando te é difícil amar
Pois não consegues afastar
Quem tanto mal te quer dar
E não consegues acabar
Com o teu chorar

Sorri
Pois estarei ao teu lado
E porque vi
O que ainda não está acabado

Quando já não crês
Que possas ter paciência
Pois tanta miséria vês
Sem razão de existência
Quando já não tens força
Porque já não és moça
Para mais uma desilusão
Dos que não têm coração

Sorri
Pois estarei ao teu lado
E porque vi
O que ainda não está acabado
CARLOS SOUSA RAMOS (1953)
in Ode À Vida e Outros Poemas