quinta-feira, 14 de junho de 2012

TAL VAI

- TAL VAI o amigo, com amor que lh’eu dei,
come cervo ferido de monteiro del-Rei;

tal vai o meu amigo, madre, com meu amor,
come cervo ferido de monteiro-maior.

E se tal vai ferido, irá morrer al mar;
si fará meu amigo, se eu del non pensar.

- E guardade-vos, filha, ca ja m’eu atal vi
que se fezo coitado por huaanhar de mim;

e guardade-vos, filha, ca já m’eu vi atal
que se fezo coitado por de mim guaanhar.
PERO MÔOGO (? - ?) in Do Cancioneiro de Amigo
(Stephen Reckers e Helder Macedo)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Santos populares

NO DIA de Santo António
Todos têm razão.
Em São João e São Pedro
Como é que todos rirão?
FERNANDO PESSOA (1888 – 1935) – Quadras
(edição de Luísa Freira)

terça-feira, 12 de junho de 2012

PERDIDO DESEJO

Cada linha do corpo
formatado
deixa o meu
descontrolado.

O olhar
forte
disfarçadamente pequenino
me transforma de novo
em menino.

A cada momento
de um aleatório encontro
se perfila a sensação
de uma desejada atracção.

E o eu
na angústia perdido
por uma, que tarda, autorização
se refugia nos meandros
de uma eufórica sensação.

Envelhecendo contente
porque, mesmo que não possa vir a ter
ninguém o pode proibir de rever.

Ah!
E como imagino sonhando.
CARLOS SOUSA RAMOS (1956) - inédito

segunda-feira, 11 de junho de 2012

BIC CRISTAL

BIC CRISTAL preta doendo nas falangetas,
papel sobre a mesa,
a luz que vibra por cima, por baixo
a cadeira eléctrica que vibra,
e é isto:
electrocutado, luz sacudida no cabelo,
a beleza do corpo no centro da beleza do mundo:
pontos de outro nas frutas,
frutas na luz escarpada,
clarões florais atrás de paredões de água,
água guardada no meio das fornalhas
- isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica,
entra a corrente por mim adentro e abala-me,
e com perícia artífice deixa no papel
o nexo estilístico entre
o terso, vívido, caótico e doce:
e o escrito, o carbonífero, o extinto,
o corpo
HERBERTO HELDER (1930)
Ofício Cantante

domingo, 10 de junho de 2012

PENSAMENTOS

PENSAMENTOS, que agora novamente
Cuidados vãos em mim ressuscitais,
Dizei-me: ainda não vos contentais
De terdes quem vos tem tão descontente?

Que fantasia é esta, que presente
Cada hora ante meus olhos me mostrais?
Com sonhos e com sombras atentais
Quem nem por sonhos pode ser contente?

Vejo-vos, pensamentos, alterados
E não quereis, de esquivos, declarar-me
Que é isto que vos traz tão enleados?

Não me negueis, se andais para negar-me;
Que, se contra mim estais alevantados,
Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.

LUÍS DE CAMÕES (1524? – 1580) – Sonetos de Luís de Camões
(escolhidos por Eugénio de Andrade)

sábado, 9 de junho de 2012

NUNÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
FERNANDO PESSOA (1888 – 1935) – Mensagem
(edição de Fernando Cabral Martins)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

PORTUGAL

PORTUGAL é a Paisagem e a Saudade.

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877 – 1952)
Senhora da Noite, Verbo Escuro (apresentação de Mário Garcia)