sexta-feira, 6 de julho de 2012

DA CAMA...

DA CAMA sacudiste um cobertor,
Estavas à espera, de costas deitado;
Dormitavas, vigilante na noite que revelava
Sórdidas imagens aos milhares
De que era feita a tua alma;
Trémulas imagens contra o tecto.
E quando todo o mundo regressou
E entre as persianas se arrastou a luz,
E escutaste nas goteiras os pardais
Tiveste certa visão da rua
Que a rua quase nem entende;
Pela beira da cama, sentada, onde
Enrolavas papelotes no cabelo,
Ou apertavas a planta dos pés, amarelada,
Na palma suja das mãos ambas.

T. S. ELIOT (1888 – 1965) – Prufrock e Outras Observações
(tradução de João Almeida Flor)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

UMA PAREDE

É a única imagem
Que aparece.

Uma parede apenas,
Mal iluminada, implorando,
Sem qualquer ideia de quarto,
Nem mesmo um indício
De que por recordo
Tão pouco e tão nitidamente:

A mosca que eu observava,
Os detalhes das suas asas,
Brilhando como turquesa.
As suas patas, para meu espanto,
Seguindo uma racha minúscula –
Uma eternidade
À volta desse acontecimento vulgar.

E nada mais e nenhum sítio
Onde regressar;
E mais ninguém
Que eu saiba para confirmar.
CHARLES SIMIC (1938)
Previsão de Tempo para Utopia e Arredores
(selecção e tradução de José Alberto Oliveira)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

PARECE...

PARECE que me rio desta fortuna
Em que o rio se acende e sobe às pontes
E não sabe deter a luz da água.

Mas de noite choveu e os riscos de veludo
Na colcha deste céu fizeram-me chorar
A gatinhar na alma.

Só eu ia no carro e a criança do amor
Transitava nos corpos
E a nenhum dava calma.

O som era um coro de pedras a bramir
Baixios a que a minha condução
Me condenava.

Num porto secular leixava-me, ir
E os músculos soberbos inchados pela tristeza
Erguiam no ar monumental beleza.

ARMANDO SILVA CARVALHO (1938) - Sol a Sol

terça-feira, 3 de julho de 2012

ÀS VEZES...

Às vezes sou o deus que trago em mim
E então eu sou o deus, e o crente e a prece
                E a imagem de marfim
                Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
                Olho em mim todo um céu
                E é um mero oco céu alto.
3 – 6 – 1913
FERNANDO PESSOA, Poesia (1902 – 1917)
(edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

RECANTO 11

O verão deu-nos uma volta aos olhos.

Voltou-se ao mais princípio dos princípios
a Ilo um ovo perdido num campo de pérolas
chamou-se por uma mulher (Ila, irmã, ovário)
para recuperar o sexo
mas o que nos apareceu foi a clareira como viramos
num filme e na televisão           a luz feita
espaço de calor aquela incandescência aberta
no juízo

que nos falava de um ser inexistente
de um ex-ser duplo
povoador de momentos agudos
de afiadas linhas da mão,

brancas gotas de amante à despedida
heróica incandescência metida
em supositório
pela artéria aorta.
LUIZA NETO JORGE (1939 – 1989) – Poesia

domingo, 1 de julho de 2012

POEMA

Para o Mário Cesariny
Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se
não devia!

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:
primeiro um, depois outro e outro;
o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam

Pregões de varina sem peixe
- o peixe morreu ao sair da água
e assim já não é peixe

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.

ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928 – 1953) – Poesia

sábado, 30 de junho de 2012

"Não pra mim..."

NÃO PRA mim mas pra ti teço as grinaldas
Que de hera e rosas eu na fronte ponho.
    Para mim tece as tuas
    Que as minhas eu não vejo.

Um para o outro, mancebo, realizemos
A beleza improfícua mas bastante
    De agradar um ao outro
    Plo prazer dado aos olhos.

O resto é Fado que nos vai contando
Pelo bater do sangue em nossas frontes
    A vida até que chegue
    A hora do barqueiro.
30 - 7 - 1914
RICARDO REIS (FERNANDO PESSOA) (1888 – 1935) – Poesia
(edição de Manuela Parreira da Silva)