sábado, 14 de julho de 2012

A UM AMIGO QUE RETIRADO DA CORTE PASSOU A SUA VIDA


    Ditoso tu, porque em tua cabana,
moço e velho espiraste a brisa pura,
servindo-te de berço e sepultura
de palha o tecto, o solho de espadana.
    Na solidão em que, livre, se ufana
silente o sol com chama mais segura,
cada um dos dias mais espaço dura,
e a hora, sem ter voz, te desengana.
    Tu não contas por cônsules os anos;
teu calendário fazem-nos as colheitas;
pisas todo o teu mundo sem enganos.
    De tudo quanto ignoras te aproveitas;
prémios não buscas nem padeces danos,
tanto mais vives quanto mais te estreitas.

FRANCISCO QUEVEDO (1580 – 1645) – Antologia Poética
(selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

JACOB

Jacob era o búfalo do seu rebanho.
Quando os seus cascos batiam no chão,
Toda a terra chispava, abrindo lanho.

Berrando deixou os irmão malhados.
Correu para a selva, para junto dos rios,
E aí o sangue das feridas foi estancado.

Em febre, caiu prostrado diante do céu,
Cansado daquela dor nos artelhos,
E do seu rosto de boi o sorriso nasceu.

ELSE LASKER-SCHULER (1869 – 1945)
Baladas Hebraicas (tradução e apresentação de João Barrento)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O QUE DISSE BILL

Bill disse: <<Houve um tempo em que precisei
de palavras, das minhas e das dos outros.
Porque eu era cego, surdo e mudo,
e as palavras eram o meu bordão, os meus ouvidos e a minha
                voz.
Hoje sou ainda cego, surdo e mudo,
mas não preciso de palavras
porque todos os caminhos por onde vou
partem de mim e por eles regresso,
e porque aquilo que ouço e me ouve
habita em mim (eu, o número mais pequeno),
e porque as palavras são um longo caminho para chegar onde
                estou>>

O Mestre não respondeu (Rinzai Ma-tsou ter-lhe-ia dado
                Com um pau) pois,
ao contrário de Bill, não tinha para dizer nada
que pudesse ser dito com palavras ou sem palavras.

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943) – os Livros

quarta-feira, 11 de julho de 2012

SONETO QUE CONTÉM UMA FANTASIA SATISFEITA COM AMOR HONESTO


   Detém-te, sombra do meu bem esquivo,
imagem do feitiço a que mais quero,
ilusão por que na morte me lacero,
doce ficção por que penosa vivo.
   Se ao íman de tuas graças, atractivo,
obedece o meu peito, aço fagueiro,
- para que me enamoras, lisonjeiro,
Se hás-de enganar-me logo fugitivo?
   Mas gabar-te não podes, satisfeito,
de que triunfas de mim por tirania:
que, deixando enganado o laço estreito
   que a quimérica forma te cingia,
pouco importava enganar braços e peito
se te é prisão a minha fantasia.

SÓROR JUANA INÉS DE LA CRUZ (1651 – 1695)
Antologia da Poesia Espanhola do Siglo de oro – Barroco
(tradução de José Bento)

terça-feira, 10 de julho de 2012

DRAMA

Gosto mais de ti,
agora que não existes,
que és neblina
e abismo,
lonjura
e noite cerrada.

Gosto mais de ti,

quando o vento
me atravessa a garganta
e cala a voz.

Agora que a noite

escura
me seca os olhos
e incendeia
a dor que sinto
por gostar
de ti.
JOSÉ MANUEL FERREIRA LOPES (1955) – O Famoso Caderno

segunda-feira, 9 de julho de 2012

QUANDO VIER...

QUANDO VIER a primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos v erdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

ALBERTO CAEIRO (FERNANDO PESSOA) (1888 – 1935) – Poesia
8edição de Fernando Cabral Martins e de Richard Zenith)

domingo, 8 de julho de 2012

CANTO DA HORA DO BANHO

ó mar contente, tão frio
que o verde das ondas é neve
fazes meu corpo tão leve,
no ar, vazio!
meus seios, cabelos, tudo é brando!
na mão do mar talhado cerce
vou, como se a um velho comando
desobedecesse!

e raia de leve um sol macio
que ainda não amadurou
frio
de manhã forte e silente
as minhas mãos nem são de gente
são formas de água, de neve
sobre o maillot

MÁRIO CESARINY (1923 – 2006) – Manual de Prestidigitação