sexta-feira, 20 de julho de 2012

NADA TÃO IMPORTANTE

Encerrou o século, com muitas janelas
partidas, paredes por rebocar,
tapumes derrubados; os mercados
regurgitam peças sobressalentes,
engrenagens estropiadas.
O cidadão, mosca torpe,
agarra-se ao bordo da mesa,
enquanto o inverno não chega.

Alguns morrem. Com razões de sobra.
Prosperam mecanismos,
outros sufocam, há reclamações
pelo atraso nas partidas.
O circo, caída a noite, parte –
esquecida, cabra magra
rilha a urtiga das pedras.

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA 81952)
Nada Tão Importante que Não Possa Ser Dito

quinta-feira, 19 de julho de 2012

CANSADO

Estou cansado…
Com as árvores entabulei conversas.
Com as ovelhas sofri o horror da seca.
Com os pássaros cantei nas florestas.
Amei as raparigas da aldeia.
Ergui os olhos para o sol.
Vi o mar.
Trabalhei com o oleiro.
Engoli o pó da estrada.
Vi as flores da melancolia no campo do meu pai.
Vi a morte nos olhos do meu amigo.
Estendi a mão para as almas dos afogados.
Estou cansado…

THOMAS BERNHARD (1931 – 1989) – Na Terra e no Inferno
(tradução de José A. Palma Caetano)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O NOCTURNO ATALHO

O que de sublime e doloroso o tempo guarda
precisava disso de maneira que até é difícil
porque se sentia só nos campos
onde os outros triunfam
descia o sombrio, o nocturno atalho

assim chegava cedo de mais à beira não do fim
mas do informulável
para quem as nossas pequenas imposturas
são uma perda, um delito, uma culpa.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (19665) – Baldios

terça-feira, 17 de julho de 2012

AMANDO.... AMAR

Amar é
paixão, amizade, transpiração
agruras, travessuras
dormir, acordar a sorrir
alegria, banho de água fria
sofrer, de saudade tremer
esperar, não ver o tempo passar
mergulhar, vindo do ar
o espaço atravessar
beijar, trepar, a pele curtir
e em vez de ir, ficar
chorar, gritar, calar
agrupar, passear, admirar
preconceito rasgar
construir, parir
a dois fugir, a dois regressar
partilhar, repartir
se divertir
ser, ter
e fazer, perder, desfazer
recomeçar, transformar
questionar, divagar
e, simplesmente
não se alterar por não saber
o que é amar, e
amando.... amar!
CARLOS SOUSA RAMOS (1956)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

HINO A IXCOZAUHQUI

               No palácio da chama, só peço que não seja eu a vergonha
dos meus antepassados!
            Ao descer nele, que eu não vos envergonhe!
            Prendo uma corda à árvore sagrada, enrolo-a oito vezes,
para que o sacerdote possa descer também na morada mágica.
            Iniciai o canto na morada da chama, iniciai o canto na
morada da chama: por que não surfe o sacerdote? Por que não
se ergue o sacerdote?
            Os súbditos assistem na morada em chamas, e ele surge,
os seus súbditos assistem.
            Que os servos não se cansem de cantar na morada da
chama, que se maravilhem e dancem com prazer.
            Chamai então a Dama da cabeleira esparsa, da qual
dependem o nevoeiro e a chuva, chamai então a Dama.
México
In Oração dos Homens – Uam antologia  das tradições espirituais
(apresentação, selecção e tradução de Armando Silva Carvalho e de José Tolentino Mendonça)

domingo, 15 de julho de 2012

VISLUMBRE

Já caminhamos os dois, muito para cima.
Ainda não chegámos, mas pouco falta,
diz o senhor das grandes portas.
Estou a ver-te,
na tua embarcação de cedro antigo.
Atravessas a estepe, mais tarde,
com os magoados passos que te conduzem a
mim.
Levanto a mão direita, à saída da clareira,
e depois surges,
com dois pequenos anéis que brilham no céu.
Pronuncias o meu nome,
as quatro palavras da nossa vida –
pão, vinho, cálice, faca,
antes de chegares À minha mesa.
Além,
o lago é muito azul quando entras na água.

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA (1948) – Quatro Luas

sábado, 14 de julho de 2012

A UM AMIGO QUE RETIRADO DA CORTE PASSOU A SUA VIDA


    Ditoso tu, porque em tua cabana,
moço e velho espiraste a brisa pura,
servindo-te de berço e sepultura
de palha o tecto, o solho de espadana.
    Na solidão em que, livre, se ufana
silente o sol com chama mais segura,
cada um dos dias mais espaço dura,
e a hora, sem ter voz, te desengana.
    Tu não contas por cônsules os anos;
teu calendário fazem-nos as colheitas;
pisas todo o teu mundo sem enganos.
    De tudo quanto ignoras te aproveitas;
prémios não buscas nem padeces danos,
tanto mais vives quanto mais te estreitas.

FRANCISCO QUEVEDO (1580 – 1645) – Antologia Poética
(selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento)