terça-feira, 14 de agosto de 2012

VIVER

                  Vindo do meio das brumas
No seu cavalo alado
Enfeitado com tantas plumas
Ofuscando quem estava a teu lado
Ele apareceu
Como Rei e Senhor do teu ser
E não te mereceu
Pois apenas te quer ter.
E na noite
Escura e bruta
Tu procuras o teu perder
Pois pela falésia abrupta
Ele atirou
O que não te é possível defender.
E no dia
Com o Sol que brilha e arde
Tu queres te encontrar
Mas com muito alarde
Ele grita
Que não te volta a dar.
E no frio
Que te chegou e se incrustou
Tu não descobres o brio
Que é preciso haver
Pois ele destrói
O que há em ti de herói.
E no vento
Forte e bento
Tu não encontras alento
Para te ires buscar
Pois ele reclama
O que tu mais amas.
Mas no fim
Há-de aparecer
Aquele que te vai ter
E com a sua sabedoria
Irá, no fim do dia
Fechá-lo e guardá-lo
Para que tu
Possas, por fim
Voltar a viver.
CARLOS SOUSA RAMOS (1956)
Ode à Vida e Outros Poemas

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

POÉTICA

A luz e a treva que mostram o
prodígio. A literatura muda
que nasce do fundo silêncio. Alfa e
ómega ou a manhã e a noite.
Seres feitos de matéria e pensa
mento feito de memória. Aqui

o verso repousa na sua figuração.

FIAM HASSE PAIS BRANDÃO (1939 – 2007) – Obra Breve

domingo, 12 de agosto de 2012

SALMO CXLVIII

1.
Halelu-Iah. Louvai ao Senhor desde os céus, o louvai em as alturas.
2.
O louvai, todos o seus Anjos: o louvai, todos os seus exércitos.
3.
O louvai, vós Sol e Lua: o louvai, todas as estrelas luzentes.
4.
O louvai, os céus dos céus: e as águas, que estais sobre os céus.
5.
Todas estas louvem ao nome do Senhor: porque o mandando ele, logo foram criadas.
6.
E confirmou-as para sempre jamais: e deu-lhes tal ordenança, nenhuma delas as trespassará.
7.
Louvai ao Senhor os da terra: as baleias, e todos os abismos.
8.
O fogo e a saraiva, a neve e o vapor: o vento tempestuoso, que executa sua palavra.
9.
Vós montes e todos os outeiros: árvores frutíferas, e todos os cedros.
10.
As feras, e todo gado: répteis, e aves que tendes asas.
11.
Vós Reis da terras, e todos os povos: vós Príncipes, e todos os Juízes da terra.
12.
Mancebos, e também donzelas: vós velhos com os moços.
13.
Todos estes louvem ao nome do Senhor: pois seu nome dele só será exaltado, sua majestade está sobre a terra e o céu.
14.
E exaltou o corno de seu povo, a saber o louvor de todos seus privados, os filhos de Israel, o povo chegado a ele. Hallelu-Iah.

in Bíblia Sagrada – Salmos
(tradução de João Ferreira Annes d’Almeida, apresentação e fixação do texto de José Tolentino de Mendonça, ilustrações de Ilda David’)

sábado, 11 de agosto de 2012

LEVANTO...

Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendo a minha morte contra o êxtase das imagens.

HERBERTO HELDER (1930) – Ofício Cantante

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

VAI NA LAGOA...

Vai na lagoa um cheiro de maré,
cheiro de juncos, o que a tarde teve.
Mulheres da monda mondam na maré,
de joelhos nus, ao sol dum dia breve.

Aquieta-se com modorra a planície,
os olhos das mulheres gotejam sono.
É quase raiva a praga que se disse
à carne arrepiada do Outono.

Asas descem o dia, um olhar estreita
aves e campos. Sob os céus doirados,
juncos colhidos a um sol de mágoa.

Corre a lagoa um frio de maleita.
E coras. Os sapos abismados
espreitam teus seios pelo espelho da água.

CARLOS DE OLIVEIRA (1921 – 1981) – Trabalho Poético

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

TODOS POR UM

A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza

Santos
Mártires
e Heróis

Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de recorrer
            à vala comum.

MÁRIO CESARINY (1923 – 2006) – Nobilíssima Visão

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Embora tenha...

embora tenha sol para me alumiar
e a lua e as estrelas depois do sol se pôr
sem a luz dos teus olhos negros
é sempre negra a noite em meu redor

BHARTRHARI (SÉC. V D.C.)
in O Vinho e as Rosas – antologia de poemas sobre a embriaguez
(organizada por Jorge Sousa Braga)