terça-feira, 21 de agosto de 2012

O NOME DE UM PAI

[do observador no velório de CDA]

A tempo de descrever
a fabricação do luto:
o punhado de letras
apanhadas ao acaso
para formar o nome preciso.
Uma a uma com seu aspecto
prontas para serem pregadas
com zelo de profissional
no quadro preto de lã
sem desconsolo e lágrima
sem se sentir sozinho
diante daquelas sílabas
soletradas pelo mover
mudo dos lábios, no silêncio
(como se fosse uma prece)
da capela vazia, antes
da chegada do corpo:
um erro na composição
do nome foi corrigido
mas a morte incorrigível
já tinha chegado, há tempo.
ARMANDO FREITAS FILHO
do livro Dever a ser publicado em Maio de 2013
(poema inédito publicado no Jornal Público de 17.08.2012, a páginas 23)
[Armando Freitas Filho, poeta brasileiro, festeja 50 anos de poesia em 2013 e publica um novo livro, Dever, onde se poderá ler o inédito acima]
[CDA – Carlos Drummond de Andrade]

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A CONDIÇÃO HUMANA

Ninguém é feliz, pobre, mau, ou bom,
            sem a vontade do deus.
Um mal responde a outro; feliz por completo,
            nenhum dos mortais que o sol ilumina.

TEÓGNIS DE MÉGARA (SÉC. VI-V A.C.)
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o Futuro
(tradução de Maria Helena da Rocha Pereira)

domingo, 19 de agosto de 2012

QUADRAS PARA A DESCONHECIDA

Ó minha desconhecida
Que formosa deves ser…
Dava toda a minha vida
Só para te conhecer!

Mais fresca e mais perfumada
Do que as manhãs luminosas,
A tua carne dourada
Como há-de saber a rosas!

Da minha boca de amante
Será o manjar preferido
O teu corpo esmaecido
Todo nu e perturbante.

Que bem tu me hás-de beijar
Com os teus lábios viçosos!
Os teus seios capitosos
Como hão de saber amar!...

Os teus cabelos esparsos
Serão o manto da noite,
Um refúgio onde me acoite
Do sol dos teus olhos graços.

Olhos Gracos, cor do céu,
Cabelos de noite escura;
Será feita de incoerências
Toda a sua formosura…

Os dias que vou vivendo
Tão desolados e tristes
É na esp’rança de que existes
Que os vivo… e que vou sofrendo…

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890 – 1916) – Poemas Completos
(edição de Fernando Cabral Martins)

sábado, 18 de agosto de 2012

A TIMIDEZ...

A timidez é o mais vulgar de todos os fenómenos.
O que há de mais vulgar em todos nós é termos
medo de sermos ridículos…

FERNANDO PESSOA (1888 – 1935) – Aforismos e Afins
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

... IR DAR A COISA NENHUMA...

                                                       Ó Terra doce e boa,
                                                      Ó minha amante gorda!
                                                                      CAMILO PESSANHA

Quando se deslocava ao longo da avenida,
parecendo saltitar entre automóveis
e outras coisas postas na rua, tais como móveis,
bidés partidos, copos com restos de bebidas,

não se sabia bem a idade que tinha
nem a raça a que propriamente pertencia.
Estou na posição que um assassino em série escolheria,
a aguardar a primeira vítima, a olhar no tecto a ventoinha.

Até estremeço ao sentir uma cavalgada
dentro da minha cabeça, qual nuvem louca.
Evaporar-me, dissolver-me, procurar a tua boca
Por entre toda esta população desnorteada,

e ir dar a nada, ir dar a coisa nenhuma.
Pudesse eu tomar a Terra como amante
gorda, voltaria a ter esperança num instante
e refastelar-me-ia entre pó e bruma.

HELDER MOURA PEREIRA (1949) – Se as Coisas Não Fossem o que São

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O QUE APENAS É INTENCIONAL...

O que apenas é intencional,
e não miraculoso
(nunca será tão engenhoso)
tem de murchar falhar e cessar
- mas melhor do que crescer
a beleza não vai saber

o fim (na calma e na fúria:
por entre alegria e angústias) dos que
a fizeram, é à glória superar
no pouco em que vivem –
a não ser que pelo teu pensar
para sempre seja muito

deixa a beleza tocar um erro
(chamado vida) morremos para respirar,
ele mesmo em sua maravilha se transforma
- e maravilhosa a morte é:
mas mais, quanto mais velho ele é
mais jovem ele se torna.

E. E. CUMMINGS (1994 – 1962) – livro de poemas
(tradução, introdução e notas de Cecília Rego Pinheiro)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

BÁLSAMO

Sobretudo um bálsamo que enfeitiçadas mãos
inventassem
em idades de amarga e má fortuna,
quando sobre o abismo interrogavas o grande
livro do mar,
sobretudo um bálsamo para a recordação das
escarpas que dilaceram em plena queda a
pele, os músculos, os ossos que já nada
podem fazer pela primavera e pelo amor,
sobretudo um bálsamo
para tudo aquilo que passa velozmente,
um berço sem música, sem rendas,
o corpo abrindo as suas corolas sob o olhar
das mães,
crescendo, já magoado e violento, para os
punhais do desejo, para os seus venenos,
sobretudo um bálsamo para a recordação das chaminés,
da irmã que já não canta ao lado dos
malmequeres,
das paredes com a cal abandonada, e sobre
a cal,
a atroz evidência da tua carne a desfazer-se.

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA (1948) – Biografia