quarta-feira, 29 de agosto de 2012

LISBOA, NOIVA DO TEJO


Sejamos mais sinceros.
Nem sempre o caldo (ainda que instantâneo)
nos aquece o corpo.
Nem mesmo a terna mão de plástico
Que nos ensaboa lentamente
o cérebro.
A máquina debruça-se no limiar
da alma. Perscruta. Indaga com copiosos
números os teus, meus, nossos
pequenos sentimentos domingueiros.
Alguém, sentado, no Cais das Colunas,
pesca um preservativo, uma embalagem,
um sonho.
Não. Não são estas as palavras de hoje.
E já os gregos tinham labirintos.
Os peixes róseos, a cantilena que sobe da lota,
o cheiro do mar – feno que te vem
à boca – campos de praia –
ainda nos encantam.
Por isso
entra no carro e acelera o choro.
Tens no porta-luvas um lenço de papel.
Assoa-te. E espera então a noite
em perfeito e desesperado
estado de limpeza.

ARMANDO SILVA DE CARVALHO (1938) – O que Foi Passado a Limpo

terça-feira, 28 de agosto de 2012

HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS


Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos imparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar.
DANIEL FARIA – Poesia (1971 – 1999)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

DO FAUSTO


Alta Montanha

Picos recortados, de penhascos agrestes.
Uma nuvem aproxima-se, encosta-se à parede rochosa
e desce sobre uma plataforma saliente, dividindo-se.

FAUSTO (saindo da nuvem):
Olhando a meus pés a mais funda das solidões,
Meditativo, toco a orla deste cume,
Abandonando a nuvem que me transportou
Suavemente, em dias claros, por terra e mar.
De mim se afasta aos poucos, sem se dissipar.
Sua massa compacta p’ra leste deriva,
Segue-lhe a rota, cheio de espanto, o meu olhar.
Divide-se em curso, ondeia, multiforme.
E ganha forma já! O olhar não me engana!
Majestosa, deitada em coxins de sol,
Gigantesca e divina forma de mulher.
Vejo-a! Parece-se com Juno, Leda, Helena,
Oferecendo-se, nobre e bela, ao meu olhar.
Ah, já se afasta! Informe, vasta, acastelada,
Repousa a leste, como um glaciar ao longe,
Reflectindo a grandeza de dias fugazes.

[…]
JOHANN WOLFGANG GOETHE (1749 – 1832) – O Jogo das Nuvens
(selecção, tradução, prefácio e notas de João Barrento)

domingo, 26 de agosto de 2012

SONETOS DE SHAKESPEARE - REESCRITOS EM PORTUGUÊS


I
Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furação,
o fora do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
            Porque o mundo, que vê e que respira,
            te verá respirar na minha lira.

CARLOS DE OLIVEIRA (1921 – 1981) – Trabalho Poético

sábado, 25 de agosto de 2012

O GRANDE DEUS ACORDA... e


O grande deus acorda,
Abre os seus três olhos,
Perscruta todos os horizontes.
Ele ergue o seu arco, a sua pinaka caída,
Ele pisa o mundo com seus passos.
Das primeiras às últimas coisas ele treme e sacode-se
E estremece.
Os laços da natureza quebrados estão.
O céu oscila com o rugido
De uma onda de extasiada libertação.
Paira um inferno –
A pira do universo.
Despedaçados o sol e a lua, esmagados as estrelas e os planetas
Chove de todos os ângulos
Um negrume de partículas
Engolidas pelas chamas,
Absorvidas num instante.
No princípio da Criação
Havia as trevas sem origem,
No princípio da Criação
Há um fogo sem fim.
No céu que tudo domina no mar de fogo que tudo devora
Xiva fecha os seus três olhos.
Ele começa o seu grande transe.

RABINDRANATH TAGORE (1861 – 1941) – Poemas
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)