segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O OFÍCIO


Recomeço.
Não tenho outro ofício.

Entre o pólen subtil
e o bolor de palha,
recomeço.

Com a noite de perfil
a medir-me cada passo,

recomeço,
pedra sobre pedra,
a juntar palavras;

quero eu dizer:
ranho baba merda.
EUGÉNIO DE ANDRADE (1923 – 2005)
in A perspectiva da Morte 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX
(selecção e prefácio de Manuel de Freitas)

domingo, 2 de setembro de 2012

REQUIEM PARA UMA ABELHA


Às vezes, nas ruas de Haarlem, o vento
sopra de onde menos se espera.
O céu tolda-se numa agreste bonomia
e recordamos as lições dos mestres:
abelha pousando sobre uma caveira nua
ou sobre o exausto corpo feliz
que sentámos à mesa do Grande Café Brinckman

Warm meat, numa baguete simples
- tudo o que nos permita esquecer os vermes,
um barco sem dono no mais sujo dos canais.
Não me apetece chamar-lhe <<vida>>,
enquanto a manhã rapidamente se despede
e a abelha morre anónima, sob o meu corpo de cerveja.

Às vezes, nas Às vezes, ruas de Haarlem, tudo
ou quase tudo nos espanca de alegria o rosto,
a lisa caveira que ninguém pintará.
O defeito, percebemos, é o rosto, somos nós,  o nada                   
que gentilmente habita as casas onde não morremos.

MANUEL DE FREITAS (1972) – A Última Porta (Antologia)
(selecção e posfácio de José Miguel Silva)

sábado, 1 de setembro de 2012

O SOL...



O sol volta a aumentar de tamanho, o seu calor multiplica-se e vemos uma ilha densa e colorida surgir na cortina das névoas. Resumidas e numa estranha confusão, mostra-nos as formas de todos os seres exterminados: os cangurus passam aos saltos; os lémures voam; o ornitorrinco vem a primeiro plano e olha-nos em agonia mas com uma expressão trocista; o menuro executa a sua dança sexual; o orangotango tosse, tuberculoso; um tatu encolhe-se numa bola.

BLAISE CENDRARS (1887 – 1961)
O Fim do Mundo Filmado Pelo Anjo N.-D.
(tradução, apresentação e notas de Aníbal Fernandes)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ÍCONES ESCONDIDOS


Ícones escondidos
mostram-se ao relento.
Eles sabem que no cansaço da noite
não há naufrágio que não desvende o seu despojo.
(nem madrugadas que cheguem ao que se quer dos dias)
o que, por soberba, se criou).
Ícones são iguais:
morrem na praia.

Mas agora
remexidos
depois de bem imaginados os destroços
que ninguém os apedreje.

Na baixa-mar
ninguém os olhe de frente –
o seu olho arrancado e o outro tão transparente
pasto de novos predadores –

ninguém os apedreje
em rigor
nem nos olhos.

SÉRGIO GODINHO – o Sangue Por Um Fio

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

OS MEDOS


       O medo quando nos empece, vem de longe; traz poeira da
via láctea, na túnica flutuante de sombras…

TEIXEIRA DE PASOAES (1877 – 1952) – Senhora Noite. Verbo Escuro
(apresentação de Mário Garcia)