quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O VELHO POETA


O seu desejo era que plantassem
um espinheiro num nesga de

terra frente ao mar e ao rio
e que ele florisse nem

que fosse um única vez.
Esse espinheiro protegê-lo-ia

mais do frio que um edredão.
A nesga de terra continua lá

e o mar e o rio e a manhã.
Só o espinheiro e o poeta

é que não.

JORGE SOUSA BRAGA (1957) – Porto de Abrigo

terça-feira, 11 de setembro de 2012

HOMENS QUE TRABALHAM SOB A LÂMPADA


Homens que trabalham sob a lâmpada
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias

Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente

Homens que escavam dia após dia o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabeça
À procura dessa pedra definida

Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre. Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída.
DANIEL FARIA - Poesia

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O ALMA

Sou o alma das visões misteriosas.
Velho da Sombra-mãe que nos criou
E viveram, em mim, todas as cousas.

Um dia, o meu destino me levou
Dessa longínqua aldeia bem amada,
Lá onde o meu espírito encarnou.

Ó minha santa aldeia amortalhada
Na sombra de alto monte, quando a aurora,
Por detrás dele, espreita deslumbrante.

Ando perdido pelo mundo, agora.
Sou crus exposta aos ventos das procelas
E nos meus braços Cristo sangra e chora.

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877 - 1952)
Poesia de Teixeira de Pascoaes - Poesia em Verso, Poesia Sem Versos.
O Pensamento Poético. o Ensaio. O Conferencista.
(organização de Mário Cesariny, edição de António Cândido Franco)

domingo, 9 de setembro de 2012

A LUA...



A Lua e as flores ---
deambulando, passaram
quarenta e nove anos.

ISSA KOBAYASHI (1736 – 1827) – Imagens Orientais
(versão portuguesa de Luísa Freire)

sábado, 8 de setembro de 2012

QUARTO

Abre a porta
sobre a palha queimada onde deitaste
sua cabeça na breve eternidade

GASTÃO CRUZ (1941) – Escarpas

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

MADRIGAL



Aquela enorme frieza
Não entristeça ninguém…
Ela estende o seu desdém
À sua própria beleza:

Quando, solta do vestido,
Sai da frescura do banho,
O seu cabelo castanho,
Esse cabelo comprido,

(Que frio, que desconsolo!)
Deixa ficar-se pendente,
Em vez de, feito serpente,
Ir enroscar-se-lhe ao colo!

CAMILO PESSANHA (1867 – 1926) – Clepsydra
(posfácio e fixação do texto de António Barahona)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

[A RAUL DE CAMPOS]



Quando olho para mim não me percebo
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo antes as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

ÁLVARO DE CAMPOS (FERNANDO PESSOA) (1885 – 1935) – Poesia
(edição de Teresa Rita Lopes)