sábado, 15 de setembro de 2012

DA MITOLOGIA


No início havia um deus da noite e da tempestade, um ídolo negro sem olhos, nu e coberto de sangue. Mais tarde, nos tempos da república, havia muitos deuses e suas esposas e crianças, camas que rangiam e raios que explodiam de modo inofensivo. No fim apenas neuróticos supersticiosos traziam nos bolsos pequenas estátuas de sal, representando o deus da ironia. Nessa altura não havia um deus que sobressaísse.

E então vieram os bárbaros. Também eles tinham em grande conta o deus da ironia. Esmagá-lo-iam com os calcanhares e usá-lo-iam para decorar os seus manjares.

ZBIGNIEW  HERBERT (1924 – 1998)
Escolhido Pelas Estrelas – antologia poética
(apresentação e versões de Jorge Sousa Braga)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

CANTO DÉCIMO OITAVO


Quando o melro de Pídio, o sapateiro,
fugiu da gaiola nós esperávamos
no pátio e cada sombra que passava
parecia ele. E no entanto não era.

Até que uma tarde, na sebe de canas,
qualquer coisa negra baloiçava
mirando-nos com uns olhitos que pareciam pontas de navalha.
Então afastámo-nos da janela
E fingimos deslocar nossas cadeiras.

TONINO GUERRA (1920) – O Mel
(apresentação e tradução de Mário Rui de Oliveira)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ó VIRTUDE DA SAPIÊNCIA


Ó virtude da Sapiência,
em anel circundaste
envolvendo o mundo,
na única via da vida,
tens três asas:
a primeira voa no alto,
a segunda da terra esvoaça,
a terceira por todos os lados voeja.
Louvor a Ti, ó Sapiência, como é justo.

HILDEGARD VON BINGEN (1098 – 1179) – Flor Brilhante
(introdução e tradução de Joaquim Félix de Carvalho e de José Tolentino Mendonça)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O VELHO POETA


O seu desejo era que plantassem
um espinheiro num nesga de

terra frente ao mar e ao rio
e que ele florisse nem

que fosse um única vez.
Esse espinheiro protegê-lo-ia

mais do frio que um edredão.
A nesga de terra continua lá

e o mar e o rio e a manhã.
Só o espinheiro e o poeta

é que não.

JORGE SOUSA BRAGA (1957) – Porto de Abrigo

terça-feira, 11 de setembro de 2012

HOMENS QUE TRABALHAM SOB A LÂMPADA


Homens que trabalham sob a lâmpada
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias

Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente

Homens que escavam dia após dia o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabeça
À procura dessa pedra definida

Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre. Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída.
DANIEL FARIA - Poesia

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O ALMA

Sou o alma das visões misteriosas.
Velho da Sombra-mãe que nos criou
E viveram, em mim, todas as cousas.

Um dia, o meu destino me levou
Dessa longínqua aldeia bem amada,
Lá onde o meu espírito encarnou.

Ó minha santa aldeia amortalhada
Na sombra de alto monte, quando a aurora,
Por detrás dele, espreita deslumbrante.

Ando perdido pelo mundo, agora.
Sou crus exposta aos ventos das procelas
E nos meus braços Cristo sangra e chora.

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877 - 1952)
Poesia de Teixeira de Pascoaes - Poesia em Verso, Poesia Sem Versos.
O Pensamento Poético. o Ensaio. O Conferencista.
(organização de Mário Cesariny, edição de António Cândido Franco)

domingo, 9 de setembro de 2012

A LUA...



A Lua e as flores ---
deambulando, passaram
quarenta e nove anos.

ISSA KOBAYASHI (1736 – 1827) – Imagens Orientais
(versão portuguesa de Luísa Freire)