quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A SUBLIMAÇÃO: A SUBLIME ACÇÃO


Sem passares pelos líquidos
sais do teu sólido
e corres directamente,
saindo de coma do solo.

Não desces àquela cave
onde estão os oceanos
e os juramentos líquidos.

Irrompes pela atmosfera
volátil e etilizado
como um espelho
a aproximar-se do sol

Sem a secura dos líquidos
que secam pela viveza
como que entram e com que saem
e conferem um outro estado
gasoso, mas não sublime,

tu passas, vivo, e rápido,
embora sobre, vidente, com
um fio de droga apurado
no teu sangue voador.

LUIZA NETO JORGE (1939 – 1989) – Poesia

terça-feira, 25 de setembro de 2012

PODERIA TER ESCRITO...


Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.

DANIEL FARIA – in Poesia

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A LENHA...


Lenha – e a extracção de pequenos astros,
áscuas. De poro a poro,
os electrões das corolas. Somente no mais escuro
não há nada. No escuro, a carne é um buraco
invisual, e o que arde é o pão
no estômago, e nos brônquios
cortadamente
o ar. E o carbono devora sono a sono a inocência
das imagens. O que toca o órgão mais profundo
do sopro não é música
nem chama: apenas um dedo de mármore entre
as têmporas como
uma bala. E enquanto pontas de fogo marcam
a boca, morremos afogados,
no espelho, no rosto. E se a loucura um instante
levanta as pálpebras.
A grande válvula do corpo.
A escuridão, a terra.

HERBERTO HELDER (1930) – Ofício Cantante

domingo, 23 de setembro de 2012

SONETO XX21 / AMOR E MORTE


Veio uma figura com o séquito da vida
            Que tinha as asas do Amor e usava o seu pendão:
            Bela era a trama, e aí nobremente tecidas,
Oh, face sequestrada pela alma, a tua forma e cor!

Sons desconcertantes. Como os que acordam a Primavera,
            Turbavam-lhe nas dobras; e pelo meu coração o seu poder
Correu sem rastro como a hora imemorável
Em que range o portal escuro do nascimento e tudo é novo.

Mas uma mulher velada acudiu, e apanhou
            A insígnia pela sua haste, para desfraldar e seguir, -
            Depois arrancou uma pena da asa do portador,
E levou-a aos lábios que a não fizeram mexer,
            E disse-me, <Vê, não respiro:
            Eu e este Amor somos um, e eu sou a Morte.>

DANTE GABRIEL ROSSETTI (1828 – 1882)
in Os pré-Rafaelitas – Antologia Poética
(prefácios e tradução de Helena Barbas)

sábado, 22 de setembro de 2012

18 do BRUMÁRIO


Por erros e omissões alcança-se
a idade indiscreta em que a vista
fraqueja e a piedade cansa,
a memória exige licença sem vencimento;
advoga-se prudência como forma
de ignorar os fracassos. Cumpre-se
o destino, a expiação é certa:
o que foi tragédia, voltará em farsa.

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA (1952)
Nada Tão Importante que Não possa Ser Dito

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

CANÇÃO DE KAIXIA


Arranca montanhas, a minha força,
Vão-me pouco favoráveis os tempos:
- Não queres ir, meu Ruão.
Cavalo Ruano, não queres ir
- Que posso eu fazer?
Ó Yu, Yu! Que vai ser de ti?

XIANG JI (232 – 202 A.C.)
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o Futuro
(tradução de Gil de Carvalho)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

[À BEIRA DO PRINCÍPIO]


À beira do princípio, do princípio,
o Anjo do Conhecimento cega
para poder ver o início
da sua queda caótica.

Aquilo que o Visionário vê é o que
o vê a ele do alto do Futuro
para onde cai com o conhecimento obscuro de
saber que está no sítio para onde vai.

(O que regressa ao sítio de onde nunca saiu
é o mesmo que nunca lá esteve,
o que sobe a escada e transpõe a porta
que dá para toda a parte).
1976/1977
MANUEL ANTÓNIO PINA (1943) – Poesia Reunida