quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CADERNO AZUL


I

Não é que não pense no fim do mês
até já pus o íman no contador
angustia-me tanta energia invisível
penso no fim do mês e da vida
e não sei o que me dói mais
os olhos abertos da minha filha
esperam saber como perguntar
o teu pai filha ainda espera respostas
ou como construir as perguntas certas
esvai-se a casa e eu com ela
preocupado com as respostas
com as sobras das perguntas
enredo as palavras e embalo-as.

CARLOS ALBERTO MACHADO (1954)
Registo Civil – poesia reunida 200-2006

terça-feira, 9 de outubro de 2012

IT’S TIME TO BE CLEAR


Os que falam de mim dizem que sou pobre
Existo à maneira de uma arvora
Tenho diante e atrás de mim a noite eterna
Vacilo, duvido, resvalo
E sei: a maior parte das vezes o amor nasce do erro
transcreve-se a azul ou a negro
sobre passagens, casas inacabadas, alturas remotas

Observá-lo apenas serve
para tornar contundente a sua forma nunca exactamente igual
a sua incrível velocidade destacada no meio do nada
enquanto a noite se desmorona
sempre mais bela

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (1965) – Estação Central (2012)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O CANTO DO MELRO


Da ponta do bico brilhante e amarelo
Da ave pequena soltou-se um trinado.
De dentro de um ramo de folhas doiradas
O melro lança o seu cantar pelas águas do lago.

ANÓNIMO (SÉCS. VIII – IX)
in Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro
(tradução de José Domingos Morais)

domingo, 7 de outubro de 2012

A PALAVRA-ESCRITA


A palavra-escrita
é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto

É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível

O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada.

ANA HATHERLY (1929) – O Pavão Negro
(prefácio de Paulo Cunha e Silva)

sábado, 6 de outubro de 2012

A CASA DEVASTADA


Em pedaços o vaso rupestre jaz,
   Seus elos de dança desfeitos,
E, junto a ele, sarças definham,
   Abafada fonte de sol!
A aranha no loureiro a teia tece,
   A erva daninha exila a flor:
E, qual estufa, o busto de Apolo
   Gera cal para a torre de Mamona.

HERMAN MELVILLE (1819 – 1891) - Poemas
(selecção, tradução e introdução de Mário Avelar)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

SOB UMA PALMEIRA...


Sob uma palmeira branca
à beira do ribeiro, no caminho curto,       
‘scruto o sânscrito da água

ANTÓnIO BARAHONA (1939) – O Sentido da Vida É Só Cantar

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

ASSIM COMO O TEMPO PASSA


Assim como o tempo passa
já posso ser o que sou
breve chuvisco de tarde
nublado pela manhã
sol em neve declinado
seco mar fresca aridez
Não deixo nem testamento
nem memória do que vi
as vozes que me habitaram
os corpos que me queimaram
não sei que sorte tomaram
nem que levaram de mim
É certo, julgamos sempre
olhar de frente o futuro
mas o que vemos é só
um braço do rio parado
muro de gruta pintado
a fazer vez de presente
Na linha do horizonte
perdeu-se outrora um navio
em terra fiquei deixado
ferido de sangue frio
de mãos e pés amarrado
à lembrança, mas de quê?
[…]

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE (1944) – Uma Fábula