domingo, 14 de outubro de 2012

AS SENHORAS DE CAMBRIDGE


As senhoras de Cambridge que vivem em almas mobiladas
são desgraciosas e têm pensamentos confortáveis
(e também, com as bênçãos protestantes da igreja
as filhas, inodoros e informes espíritos)
elas acreditam em Cristo e Longfellow, ambos mortos,
estão invariavelmente interessadas em tantas coisas –
neste instante em que escrevo ainda é possível encontrar
prazenteiros dedos tricotando para o serão os Pólos?
talvez. Enquanto rostos permanentes recatadamente debatem
o escândalo da Sra. N e do professor D
… as senhoras de Cambridge não querem saber, sobre
Cambridge se por vezes na sua caixa
cor de alfazema e sem esquinas, a
lua se agita como um resto de rebuçado zangado.

E. E. CUMMINGS (1894 – 1962) -  livrodepoemas
(tradução, introdução e notas de Cecília Rego Pinheiro)

sábado, 13 de outubro de 2012

ESCUTAS-ME


Filha da voz, de costumes
Breves – entreaberta – escutas
A moreia por uma secção de canas.
O hipocampo nas constelações

Frias – reparte seu perpétuo
Almanaque. Até muito tarde
Falas. Depois, adormeces.
1 … 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8. Em oito
Partes.
GIL DE CARVALHO (1954) – De Quatro e Cinco

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O AZUL


Do eternamente Azul a serena ironia
Abate, indolentemente bela como as flores,
O poeta impotente que o seu génio maldiz
Ao longo de um deserto sobre a aridez das Dores.

Furtivo, olhos fechados, sinto-o bem que remira
Com o terror intenso dum remorso por dentro,
A minha alma vã. Onde fugir? Delírio
De que noite lançar, farrapos, ao desprezo?

Nevoeiros, subi! Vertei as cinzas mornas
Com remendos de bruma esparsos pelos céus
Que afogará o charco lívido dos outonos
E construí um largo e silencioso tecto!

E tu, sai dos letais paúis e arrepanha,
Ao cercarem-se, a lama e os pálidos caniços,
Caro Tédio, a tapar com a mão jamais lassa
Os buracos azuis que as aves más abrirem.

[…]

STÉPHANE MALLARMÉ (1842 – 1898) – Poesias Lidas por Fernando Pessoa
8tradução e prefácio de José Augusto Seabra)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

NO MATO É MORTO UM VEADO


No mato é morto um veado
Coberto de juncos brancos:
Há uma rapariga em flor
Um belo homem a seduz.

No bosque troncos de carvalho
No mato, morto, um veado:
Com juncos brancos, ata-o bem.
Lá está ela – bela como jade!

<Devagarinho – gentilmente!
Não estrague a faixa – à cintura,
Não faça ladrar o cão!>

SHIJING Livro dos Cantares 8(~1200~~1600)
In Uma Antologia de Poesia Chinesa do Shijing a Lu Xun
- segundo milénio antes da era comum – século xx
(por Gil de Carvalho)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CADERNO AZUL


I

Não é que não pense no fim do mês
até já pus o íman no contador
angustia-me tanta energia invisível
penso no fim do mês e da vida
e não sei o que me dói mais
os olhos abertos da minha filha
esperam saber como perguntar
o teu pai filha ainda espera respostas
ou como construir as perguntas certas
esvai-se a casa e eu com ela
preocupado com as respostas
com as sobras das perguntas
enredo as palavras e embalo-as.

CARLOS ALBERTO MACHADO (1954)
Registo Civil – poesia reunida 200-2006

terça-feira, 9 de outubro de 2012

IT’S TIME TO BE CLEAR


Os que falam de mim dizem que sou pobre
Existo à maneira de uma arvora
Tenho diante e atrás de mim a noite eterna
Vacilo, duvido, resvalo
E sei: a maior parte das vezes o amor nasce do erro
transcreve-se a azul ou a negro
sobre passagens, casas inacabadas, alturas remotas

Observá-lo apenas serve
para tornar contundente a sua forma nunca exactamente igual
a sua incrível velocidade destacada no meio do nada
enquanto a noite se desmorona
sempre mais bela

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (1965) – Estação Central (2012)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O CANTO DO MELRO


Da ponta do bico brilhante e amarelo
Da ave pequena soltou-se um trinado.
De dentro de um ramo de folhas doiradas
O melro lança o seu cantar pelas águas do lago.

ANÓNIMO (SÉCS. VIII – IX)
in Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro
(tradução de José Domingos Morais)