domingo, 28 de outubro de 2012

GEOGRAFIA EM PÓLVORA...


Geografia em pólvora, solitária brancura
deflagrada, é a flor das lâmpadas, poeira
a fremir por canos finos, largura escoada,
imprime-se o espaço em transe,
pulmões na camisa, por ser devagar,
por o mel escorrer, distraído, frio,
ou fervendoOLVORA
na cabeça, sempre a porejar da pedra,
lento no rosto que a luz colérica varre,
sempre na atenção pendida,
ou grãos luzentes toda a noite no fundo
branco,
fechado, o mel, no limiar,
a casa alagada, flutuante, acesa,
e fosforescem cartas, mapas, golfada de seda abrupta
em cima do estremecimento do meio-dia,
canais de mel, os androceus, manchas queimando,
sobre as pautas desdobradas de baixo para cima

HERBERTO HELDER (1930) – Ofício Cantante

sábado, 27 de outubro de 2012

EU QUERO, EU QUERO


De boca aberta, o deus recém-nascido
imenso, calvo, embora com cabeça de criança,
gritou pela teta da mãe.
Os vulcões secos estalaram e cuspiram,

a areia esfolou o lábio sem leite.
Gritou então pelo sangue paterno
que agitou a vespa, o tubarão e o lobo
e veio engendrar o bico do ganso.

De olhos secos, o inveterado patriarca
Ergue seus homens de pele e osso;
farpas sobre a coroa de fio dourado,
espinhos nas hastes sangrentas da rosa.

SYLVIA PLATH (1932 – 1963) – Pela Água
(tradução de Maria de Lurdes Guimarães)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ONDE COAXAVAM RÃS

Onde coaxavam rãs
em charcos de juncos remexidos por javalis
atoladas de água até aos joelhos
é que elas se despiam

à noite as rememorava
sacudindo as crinas
e escouceando
contra a impertinência de algum insecto
quando se baixam e levam as mãos aos sovacos
e a pouca água escorre pelo abdómen

toda a minha vida desejei aquela água
que acaba por se perder entre coxas e juncos

penso que o Pirico se concentrava então no mata-ratos
e olhava os animais com um carinho suspeito.

MANUAL AFONSO COSTA (1949) - Os Últimos Lugares

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A VIDA É...


A vida é uma vitória constante. Cada minuto da vida é
preciso arrancá-lo às mãos da morte.

TEIXEIRA  DE PASCOAES (1877 – 1952) – Senhora da Noite, Verbo Escuro
(apresentação de Mário Garcia)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

LEVANTA-TE E OBEDECE


Levanta-te e obedece à criança que foste
vai pelo deserto da idade onde a mentira
comendo a paisagem se expande dentro
destas pobres imagens desmanteladas

o voo das infelizes aves desprende-se  da terra
onde o corpo guardou o remoto canto  das luas
dos limos das areias e das primeiras águas

abre agora as pálpebras no quarto escuro
acorda o branco tigre pelo sangue terno do sono
não tenhas medo do dilúvio
onde o rapaz cresce deixa o cortante dia
entornar-se luminoso como um punhal

AL BERTO (1948 – 1997) – O Medo

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A IDADE


Quem de forma justa e sagrada
Passa a vida,
Docemente alimentando-lhe o coração,
Longa vida criando,
A esse acompanha-o a esperança, que
À maioria dos mortais
Rege a tão versátil opinião.

Uma das mais belas imagens da vida, o modo como os costumes inocentes preservam o coração vivo, de onde nasce a esperança; esta concede então também à simplicidade um florescimento, com as suas diversas tentativas, e torna ágil o sentido, e tão longa a vida, na sua demora precipitada.

FRIEDRICH HOLDERLIN (1770 – 1843) – fragmentos de Pindaro
(tradução, notas e posfácio de Bruno C. Duarte)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

TEORIA DAS CORDAS

Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste da alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.
MANUEL ANTÓNIO PINA - Atropelameto e Fuga