domingo, 11 de novembro de 2012

QUANDO...


Quando a flâmula vinho capta o ocaso
Esparsas chaminés em luz cruzada. Sopram

Vem a crosta da neve sobre o rio
E um universo cobre-se de jade
Flutua o leve bote qual lanterna,
A água fluente coagula-se no frio. E em San Yin
está um povo de lazer.
Gansos selvagens se atiram à beira da areia,
Nuvens se apinham pela fresta da janela
Água ampla; gansos partem com o Outono
Alaridos de gralhas sobre as luzes
dos pescadores,
Move-se luz na linha norte ao céu;
onde os meninos chuçam pedras
à procura de camarões.
Nos mil e setecentos veio Tsing para estes lagos da colina.
Move-se luz na linha sul do céu.

[…]
EZRA POUND (1885 – 1972) – Os Cantos
(tradução e introdução de José Lino Grunewald)

sábado, 10 de novembro de 2012

NA FRONTEIRA


Um poema de uma série

Se armas o arco, que seja o mais forte
Se vais usar flecha, bem mais comprida
Se queres dar no homem, primeiro é o cavalo
Se queres o inimigo primeiro captura o chefe.
Matar gente – tem também limites,
Em qualquer estado se respeitam fronteiras;
Estão os invasores dominados
Para quê massacres.

TU FU [DU FU] (712 – 770)
in Uma Antologia de Poesia Chinesa do Shijing a Lu Xun- segundo milénio antes da era comum – século xx
(por Gil de Carvalho)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ONAN DOS OUTROS!


Onan dos outros! Ó deus que dás confiança
Só a quem já confia!
E não à morrente ou graça mão que se ansa
Varonil e vazia.

O Virgem Negra, tal me descobriram
Cincoenta anos depois,
Em minha infusão estou. Tombam, deliram
Em vão quantos seguiram

Minha viagem ao nunca ser dois.
No seu andor de luto e de desgraça
O Virgem Negra passa
Maior que todos os sois.

MÁRIO CESARINY (1923 – 2006)
O Virgem Negra

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA


Não aqui, - além é que existes. Teu voo
demais amplo na extensão dos olhos
de tão curto olhar,
em tempo de pausa acompanhamos.

Mito
anjo
graça
alma de dança
teu corpo era paixão na pedra.

… Param os passos,
espraia-se o mar
onde arrebatas as vestes do vento,
ó virtigem de ser e de estar!

MARIA ÂNGELA ALVIM (1926 – 1959) / Superfície – Toda Poesia
(apresentação de Max de Carvalho)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SCHIU!


O padre da paróquia de Montelabreve esteve bem até  há quinze dias. De repente meteu-se na cama e morreu com a cabeça encostada aos dois pavões azuis pintados na parede do quarto.
À sobrinha que estava sentada ali ao pé, mesmo um segundo antes de fechar os olhos para sempre, olhou para ela e depois levou o dedo aos lábios e, baixinho como se fosse um sopro, fez: <schiu!>; em suma, dizia-lhe que estivesse calada. Calada a respeito de quê? Estaria já a ouvir outras vozes? Se calhar uma música que lhe vinha lá de cima? Ou queria que ela não dissesse que ele estava a morrer? Ou, se não, um conselho para se calar na vida em geral? Ou era ele que mandava calar-se a si próprio, com o medo que faziam as palavras que se lhe derretiam na boca?
Desse dia em diante a sobrinha compreendeu que dessas coisas não devia falar com ninguém. E de vez em quando volta a olhar para os dois pavões azuis que estão a desvanecer-se da parede.

TONINO GUERRA (1920) – O Livro das Igrejas Abandonadas
(tradução de José Colaço Barreiros)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A QUARTA PORTA

É a solidão
o que o coração procura,
como poderei não
saber o que não sei?

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há-de vir?
O que está a trás de ti

é a tua imagem
que o Futuro persegue.
Este é um lado de tudo
e o outro é o mesmo e o outro.

MANUEL ANTÓNIO PINA - O que está atrás de ti / Aquele que quer morrer
(Todas as Palavras - poesia Reunida)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

OLHAR DENTRO


Olhar dentro do espelho deu-me ideias
do que seria um animal perfeito;
já penso transformar-me, ter maneiras,
asas talvez, ou tromba vigorosa;
dizer adeus aos fios, e adquirir
o encanto popular de um percevejo
ou o hieratismo de uma louva-a-deus.
Ser outro é privilégio de quem tece
na face do destino um transparente
véu, e ao vão casulo
prefere a superfície de uma folha;
com muito estudo, poderei crescer
até figura de homem, se me der
para ser a ti mesmo semelhante.
Perder amigos e vizinhos, ver
à minha volta um assustado espanto,
posso aceitá-lo, se for esse o preço
de uma forma mais fina e elegante;
só me custa deixar, no chão da teia,
a arte de inventar que me conheço.
Melhor seria que mudasses tu; mas,
metaformoso como és, não vais
cair na esparrela de trocar
o teu corpo que sabe a mar e luz
pela velha virtude de um insecto.
Diferentes assim, não vejo como
iremos construir casa comum;
talvez me deixes habitar o tecto,
e te deixe eu morar dentro do espelho.

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE (1944) – Aracne