quarta-feira, 14 de novembro de 2012

ANTES DAS COUSAS


Antes das cousas, já existia Deus, mas só depois dos homens é que ele vive.

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877 – 1952) – Senhora da Noite. Verbo escuro
(apresentação de Mário Garcia)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A VISITA

Sangra o meio
onde de permeio
se abrem as feridas
por alienação permitidas.
Gangrena o espaço
contendo um pedaço
de coração desfeito
por compromisso com defeito.
Morre o estático
aglutinado por um sarcástico
que apenas com a sua vontade
assassina a bondade.

Nasce uma sensação
de penitência pela tentação
por uma vida com crédito
que é transformada em descrédito.
Cresce uma transfigurada revolta
alimentada por uma vomitada
desova
que pretende afogar
quem não se quiser espantar.

É dado por concreto um certo
terminus excitante
imobilizador de cabeças usadas
agarradas à possibilidade
de acreditação de fadas.

E assim se desvanece o dia
que é nada no nada da via
de um vida feita em nada.

CARLOS SOUSA RAMOS (12.11.2012)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A CANÇÃO DO CAMINHO


Quem se atreveria a dirigir o seu rosto
Para este ou aquele lugar?
Não há nada sob o céu tão azul
Que mereça viagem.
Em toda a parte se iniciam caminhos,
E os homens caminham fervorosamente por eles;
Mas aonde quer que levem essas estradas
Podes ter a certeza de que nada há no fim.

ROBERT LOUIS STEVENSON 81850 – 1894) – Poemas
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)

domingo, 11 de novembro de 2012

QUANDO...


Quando a flâmula vinho capta o ocaso
Esparsas chaminés em luz cruzada. Sopram

Vem a crosta da neve sobre o rio
E um universo cobre-se de jade
Flutua o leve bote qual lanterna,
A água fluente coagula-se no frio. E em San Yin
está um povo de lazer.
Gansos selvagens se atiram à beira da areia,
Nuvens se apinham pela fresta da janela
Água ampla; gansos partem com o Outono
Alaridos de gralhas sobre as luzes
dos pescadores,
Move-se luz na linha norte ao céu;
onde os meninos chuçam pedras
à procura de camarões.
Nos mil e setecentos veio Tsing para estes lagos da colina.
Move-se luz na linha sul do céu.

[…]
EZRA POUND (1885 – 1972) – Os Cantos
(tradução e introdução de José Lino Grunewald)

sábado, 10 de novembro de 2012

NA FRONTEIRA


Um poema de uma série

Se armas o arco, que seja o mais forte
Se vais usar flecha, bem mais comprida
Se queres dar no homem, primeiro é o cavalo
Se queres o inimigo primeiro captura o chefe.
Matar gente – tem também limites,
Em qualquer estado se respeitam fronteiras;
Estão os invasores dominados
Para quê massacres.

TU FU [DU FU] (712 – 770)
in Uma Antologia de Poesia Chinesa do Shijing a Lu Xun- segundo milénio antes da era comum – século xx
(por Gil de Carvalho)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ONAN DOS OUTROS!


Onan dos outros! Ó deus que dás confiança
Só a quem já confia!
E não à morrente ou graça mão que se ansa
Varonil e vazia.

O Virgem Negra, tal me descobriram
Cincoenta anos depois,
Em minha infusão estou. Tombam, deliram
Em vão quantos seguiram

Minha viagem ao nunca ser dois.
No seu andor de luto e de desgraça
O Virgem Negra passa
Maior que todos os sois.

MÁRIO CESARINY (1923 – 2006)
O Virgem Negra

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA


Não aqui, - além é que existes. Teu voo
demais amplo na extensão dos olhos
de tão curto olhar,
em tempo de pausa acompanhamos.

Mito
anjo
graça
alma de dança
teu corpo era paixão na pedra.

… Param os passos,
espraia-se o mar
onde arrebatas as vestes do vento,
ó virtigem de ser e de estar!

MARIA ÂNGELA ALVIM (1926 – 1959) / Superfície – Toda Poesia
(apresentação de Max de Carvalho)