domingo, 2 de dezembro de 2012

MUITO LHE DISSE


Muito lhe disse, pois tudo o que os porcos cogitam
            Ou cantam, quase sempre aos Anjos e a Ele se refere;
Muito pedi, por amor à Pátria, para que o Espírito
            De repente não se nos imponha sem ser invocado;
Muito também por vós, sobre quem, na Pátria, pesam cuidados,
            Aos quais a gratidão divina traz, sorrindo, os refugiados,
Conterrâneos meus! por vós, enquanto o lago me balouçava,
            E o remador, calmamente sentado, louvava a travessia.
Sobre a vasta superfície do lago havia um só alegre rumorejar de ondas
            Sob as velas e agora é a vez de a cidade que amanhece
Desabrochar e clarear. Deslizando a sombra dos Alpes
            Aproxima-se o barco e descansa no porto.
Aqui a margem é tépida e rasgados vales amáveis,
Iluminados na harmonia de atalhos, lampejam-me do seu verde.
Os jardins lado a lado e os botões brilhantes já despontam,
            E o canto dos pássaros convida o caminhante.
Tudo se torna familiar, mesmo a saudação de passagem
            Parede dita por amigos, todos os rostos parecem conhecidos.

FRIEDRICH HOLDERLIN (1770 – 1843) – Elegias
(tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado)

sábado, 1 de dezembro de 2012

HÁ SÓ UMA TERRA

No tempo em que havia muitas Terras,
podíamos ferir, com leviana mão,
de morte os rios e os trigais:
havia de reserva muitos mais.
Hoje porém a Terra é uma só
e o fumo intenso.
Obstruídos os tímidos canais
por onde escoamos a nossa impaciência.
O rio uma náusea de peixe apodrecido.
Os vegetais recuam. A di-
solução? Ai, o desamor
tão pesado e compulsivo,
o húmido culto dos despojos
da (outrora longa) Terra que restar.

A.M. PIRES CABRAL (1941) – Antes que o Rio Seque

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

GUIA-ME

Guia-me a só razão.
Não me deram mais guia.
Alumia-me em vão?
Só ela me alumia.

Tivesse Quem criou
O mundo desejado
Que eu fosse outro que sou,
Ter-me-ia outro criado.

Deu-me olhos de ver.
Olho, vejo, acredito.
como ousarei dizer:
<<Cego, fora eu bendito>>?

Como o olhar, a razão
Deus me deu, para ver
Para além da visão -
Olhar de conhecer.

Se ver é enganar-me,
Pensar um descaminho,
Não sei. Deus os quis dar-me
Por verdade e caminho.

FERNANDO PESSOA 81888 - 1935) - Ficções do Interlúdio
(edição de Fernando Cabral Martins)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

LA MUY HERMOSA

Sê como eles. Chegam pela manhã
gastando os poucos trocos, a vida. Sentam-se
nos sombrios recantos da taberna e entretêm-se
a jogar bilhar ou lançando cartas sebentas sobre
mesas de madeira acariciadas pelos anos.

Fingem sorrir, acendem um cigarro sem que lhes
importe a beleza ou demais feridas. Mais relevantes
são os pequenos dramas de rua, intrigas, mortes e
desavenças - ou a ébria bondade dos amigos. Aprende
a humildade desses velhos de boné ensombrando
as súbitas rugas da face. Para tanto abandono
não são precisas palavras. Os mendigos e a grande confraria
do álcool te dirão o mais certo silêncio. Sepulta
a solidão nos mármores gordurosos de balcões tristes
e escuros e esquece o teu próprio nome, preferindo-lhe
a serenidade de um vagaroso declínio.

Bebe com eles, sabe a cor de seus ternos olhares
praguejantes, e diz às mãos que não passam
de mãos,ao corpo que não passa de corpo.

MANUEL DE FREITAS (1972)-  A Última Porta (Antologia)
(selecção e posfácio de José Miguel Silva)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

DENTRO DA VIDA


Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer

GASTÃO CRUZ (1941) – A Moeda do Tempo

terça-feira, 27 de novembro de 2012

NÃO HAVER...

Não haver deuses é um deus também.

FERNANDO PESSOA - Aforismos e Afins
(edição e prefácio de Reichard Zenith, tradução de  Manuela Rocha)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

SOU EU, NÃO TEMAS.

Sou eu, não temas. Não me ouve quebrar
em ti todos os meus sentidos?
O meu sentir que asas veio a encontrar,
voa, branco, à volta da tua face sem ruídos.
Não vês a minha alma de silêncio vestida
mesmo frente a ti aparecida?
Não amadurece minha oração em flor
no teu olhar como numa árvore de suave odor?

Eu sou o teu sonho, se sonhador fores.
Sou a tua vontade, se velar quiseres
e apodero-me da magnificência sem par
e arredondo-me como um silêncio estelar
sobre a estranha cidade do tempo a passar.

RAINER MARIA RILKE (1875 – 1926) – O Livro de Horas
(tradução e apresentação de Maria Teresa Dias Furtado)