sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

(ORAÇÃO POPULAR À LUZ)

Arca benta fechada,
Corpo santo de Jesus,
Já cantam os galos,
Lá vem a luz,
Para salvar a minha alma,
Para sempre; ámen, Jesus!

In Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

AS HORAS

As horas de que tenho pena
São as que nunca viverei.
Astro, ‘standarte, azul, falena,
Manto de rei,

Miséria do lacónico auge,
Quando a ânsia foi grande e sangue.
Palácio fauce de leão langue.
A cascata de leve estruge

E entre áleas ou coberta a séries
De prantos por interromper,
Diverge a astros o dizeres
Que é certo morrer.

Por isso sonho alado, gala
Da tarde atónita e macia,
O rastro saqueou e opala
Sequência fria.
31.5.1917

FERNANDO PESSOA (1888 – 1935) – Poesia 1902/1917
(edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

OS SONHOS

À memória de Ângel Crespo

Que são os sonhos?

Os sonhos são produções vulcânicas da memória, anunciações, a inquietação silenciosa dos mortos?

O paraíso e o inferno que os homens podem entrever como coisa sua, ínvia?

Ou serão o território dos trinta e três deuses védicos, deles e de todos os outros depois desaparecidos?

Sonhando, os loucos deixam de atormentar-se, e para os alucinados a vida será menos labiríntica, menos persecutória, será mais benévola, mais justa?

As transfigurações, os presságios, as deambulações sinuosas dos sonhos terão algo a ver com o trabalho poético?

E a poesia, doçura enigmática e interrogante, em busca do perene, do impossível, não se resume a uma espécie última, uma espécie incandescente de sonho?

ANTÓNIO OSÓRIO (1933) – A Luz Fraterna

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

SENTADO NO PÓ

Sentado no pó do cru tronco
Como me sinto só e não me encontro
Mas ao ver o teu chegar
Como eu quero crer que te vais dar
E sob o sol escaldante que abrasa
Todo o meu olhar pedante se arrasa

E vindo tu toda nua
Desposada de qualquer querer
Distribuindo a brisa que é tua
E criando desejo para eu te ver
Fazes com que todo o meu ser
Que se encontra deveras distraído
Se arrepie e se desencadeie para te ter
Sem ficar arrependido

E vindo tu toda frágil
Sem qualquer força de presença
Não mostrando que podes ser ágil
E ludibriando a minha crença
Fazes com que o meu lânguido olhar
Que me quer dizer que sou o melhor
Em tudo
Seja a metamorfose do meu amar
Para que não possa ficar mudo

E vindo tu com vontade de me conhecer
E me ter
Sem pedir nada em permuta
Fazes com que eu
Sem qualquer disputa
Em homem me transforme

CARLOS SOUSA RAMOS

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

NOS BAIXIOS DO CETINJE

(canção popular)

Ó Cetinje – rio orgulhoso!
Dizias – não ter baixios.
Vim – para a beira das tuas margens,
E encontrei – um baixio, dois baixios, três baixios…
Num campeavam – os convidados de uma boda
Rapazes e raparigas – brincavam no segundo.
No terceiro – um irmão e uma irmã,
A irmã bordava – mangas para o irmão,
O irmão cosia – fino corpete para a irmã.
A irmã diz-lhe: - <Cose as mangas, irmão,
Fá-las estreitas – que uma maça não passe,
Que mão de homem – não possa lá entrar!>
<Querida irmã – respondeu o irmão,
Se alguma vez – mão de homem se aproximar
O teu mimoso corpete – abrir-se-á por si.>

Ó Cetinje – rio orgulhoso,
Que dizias não ter baixios!

In Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro
(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

domingo, 9 de dezembro de 2012

NUNCA ME SENTI EM CASA

Nunca me senti em Casa - Cá em baixo -
E nos Aprazíveis Céus
Não me sentirei em Casa - eu sei -
Eu não gosto do Paraíso -

porque é domingo - sempre -
E o Recreio - nunca chega -
E o Éden serão solitárias
Claras Tardes De Quarta-Feira -

Se, ao menos, Deus fizesse visitas -
Ou Sestas -
E deixasse de nos ver - mas dizem
Que Ele - por um Telescópio

perpétuo nos olha -
Eu própria fugiria
D'Ele - e do Espírito Santo - e de Todos -
Não fosse o <<Juízo Final>>!

EMILY DICKINSON (1830 - 1886) - Esta É a Minha Carta ao Mundo
(tradução de Cecília Rego Pinheiro)

sábado, 8 de dezembro de 2012

VOLUME DE LIVROS

Bati com a porta atrás do poema.
Os dedos trilhados pela segunda vez
num só dia, inspiram alguma cautela.

Foram-se os dedos, ficaram os anéis,
a sensação de não conseguir passar
com o corpo todo, o volume de livros
debaixo do braço.

E o peso que os livros ganham
quando arrumados num saco, numa caixa
na memória?

TERESA M.G. JARDIM (1960) - Jogos Radicais