segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

PRIMEIRA LUA DE INVERNO

I

Repousa em redor a pequena vila.
Às luzes que cruzam a rua
Juntam-se as lanternas de um fiacre.
Poluídos para alguns os frutos do dia,
Deixam o mercado agora ermo,
Sem uvas nem girassóis.
Ouve-se música através dos muros,
No jardim alguém tenta calar o apelo
De um amor recusado, ainda em chagas.
Mas na cascata a água, precipita-se,
Fresca num jorro rápido.

II

Acabou o Sol & o sino da tarde leva
Os deuses, um a um, a um passado provisório,
Donde irão emergir para o grande cisma
Do Inverno, o primeiro sobro do qual
Já se ouve subir os píncaros da serra.
Para a deusa branca chegou o fim do seu enigma,
A sua ruína coroa agora as ruínas do castelo:
Aqui morrem os deuses & as borboletas.
Rejeitados olhamos apenas,
Recíproco, um brilho no vazio.

M.S. LOURENÇO (1936-2009) – O Caminho dos Pisões

domingo, 23 de dezembro de 2012

CARTA DE AMOR

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e…
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar…
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração

JORGE SOUSA BRAGA (1957) – O Poeta NU

sábado, 22 de dezembro de 2012

A ÁRVORE DE NATAL


A árvore de Natal
não é uma árvore
que foi cortada
é o pinheiro-bravo
a entrar pela janela
com as raízes enraizadas
na terra
do jardim
do bungalow
ADÍLIA LOPES (1960) – Dobra

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

ASSIM ERA NOS TEMPOS

Assim era nos tempos.
E as pequenas estrelas caem agora dos ramos das oliveiras,
Sombra bifurcada cai escura no terraço
Mais negra que o gavião pairando
                a quem não importa a tua presença,
O estampado da sua asa é negro no telhado
E o estampado desapareceu com o seu grito.
Por isso leve é o teu peso sobre Tellus
Tua marca não mais funda talhada
Teu peso menor que a sombra
Tu porém roeste através da montanha,
               Os Dentes de Cila menos aguçados.
Encontraste ninho mais suave que cunnus
Ou encontraste melhor descanso
Tens plantação mais funda, o ano da tua morte
Traz-te rebento mais temporão?
Penetraste mais fundo na montanha?
[…]

EZRA POUND (1885-1972) – Do Caos À Ordem
(tradução e prefácio de Luísa M.L.Q. Campos e Daniel Pearlman)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

EM FRENTE DA MACIEIRA

Não morro antes de ter visto a vaca
no estábulo do meu pai,
antes de a erva acidular a minha língua
e o leite mudar a minha vida.
Não morro antes de o meu jarro estar cheio a transbordar
     e o amor da minha irmã me lembrar
como é bonito o nosso vale,
     onde  amassam a manteiga
e, na Páscoa, abrem marcas no toucinho…
     Não morro antes de a floresta mandar os seus temporais
e de as árvores falarem de verão,
     antes de a minha mãe ir pela rua com um lenço vermelho,
atrás do carro aos solavancos, no qual
     ela empurra a sua felicidade maças, peras, galinhas e palha…
Não morro antes de se fechar a porta por
     onde entrei,
em frente da macieira…

THOMAS BERNHARD (1931-1989) – Na Terra e no Inferno
(tradução de José A. Palma Caetano)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

NUMA RUA DA INFÂNCIA

A criança passeia na cidade
uma avestruz voraz segue os seus passos
É um domingo no Outono braços
nadam nas montras como se verdade

o mar de cinza fosse e a eternidade
da tarde anoitecida aos vis pedaços
de corpos irreais desse unidade
A criança recolhe os estilhaços

uma ave que marche segue o rastro
da pequena aventura Ah o passado
produzimo-lo tarde: uma criança

o interroga interrogando a dança
da feroz avestruz que sobre o vasto
campo do mundo a segue como antes

GASTÃO CRUZ (1941) – Crateras

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

AMANTES


Abraços quentes, emoções gratificantes
Beijos desejados, minuciosamente pensados
Sem dificuldade, ternamente realizados
E o mundo do avesso se virou
No encontro daqueles dois amantes

Vontades que se afixam, olhares que se fixam
Mãos que se unem, personalidades que se fundem
Corpos que suam, seres que se juntam
E o mundo de repente entendeu
Porque no fim, nenhum dos dois se moveu

Existência de vivências
Nunca antes constatadas
Verdades questionadas, crenças abaladas
Morte anunciada de postura enraizada
E o mundo se transformou porque alguém amou.

            CARLOS SOUSA RAMOS (1956) – Sem Condizer