quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O LAMENTO DE C_______________


Quão bela era a luz do céu,
Que anjos dos céus desceram
Quando a juventude era algo mais do que vinho
E o homem e a natureza pareciam divinos
Aqui senti, porém, que a juventude devia perecer.

  Aqui senti, porém, que a juventude devia perecer
Quão insubstancial parecia a terra,
A terra de Aladino! em cada avanço,
Ou ali ou aqui, um novo romance;
Jamais sonhei poderem desvanecer-se.

  E nada então tinha senão o seu valor,
A própria dor. Sim, prazer ainda e dor
Numa rápida reacção da vida fizeram
Uma disputa de um amante, feliz disputa
Na juventude que não volta mais.

  Mas não voltará a juventude?
Também para o seu leite de morte ele partiu,
E só me deixou para à noite despertar
Com um coração pesado, outrora leve?
Oh, junto à sua cabeça depositai – uma pedra!

HERMAN MELVILLE (1819 – 1891) - Poemas
(selecção, tradução e introdução de Mário Avelar)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

- COLECÇÃO –


lago oculto
focas anidras
nádegas de mica
o confessionário plúmbeo
virgens encharcadas entre lençóis
uma águia alugada para a estação
uma pega a limpar ruas
os lagartos mergulhados num fulgor sem limites
a vérmina que abunda no sentido do negro do marfim
o ranho fiel ao nariz
a asma que vive nos vãos de escada
aranha, suja mulherzinha na tua teia
chegou o momento de descansar os ossos moídos
a banheira da Rainha arrematava-se pelo mais alto lance
lá para fora a galinha cozida e deixai entrar a minha gente agora

in Doze Nós Numa Corda
(poemas mudados para português por Herberto Helder)

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

NATAL 2012

Cortinado corrido
deixando entrar do dia
a sua luminosidade,
vidro embaciado
disfarçando mal
as diferenças que no ar havia,
janela aberta apenas o suficiente
para se denotar uma certa
ansiedade,
e a renovação de um desejo
todos os anos, na mesma altura,
repetido.
Mas este ano parece
que o menino não aparece.
Andam, algures nos confins
do universo, uns seres, entretidos
com “coisas” que não são de sua
estima.
E o menino que já chora
não quer vir, para em pranto não
entrar.
E a mãe lhe diz: há quem
por ti espera, há quem
pela renovação vive, há quem
por ele, e por ele, se esmera.
E o menino, limpando as lágrimas
tristemente caminhando
por aí vem, trazendo possíveis
boas novas, a quem por ele
não tem desdém.
CARLOS SOUSA RAMOS (1956)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

PRIMEIRA LUA DE INVERNO

I

Repousa em redor a pequena vila.
Às luzes que cruzam a rua
Juntam-se as lanternas de um fiacre.
Poluídos para alguns os frutos do dia,
Deixam o mercado agora ermo,
Sem uvas nem girassóis.
Ouve-se música através dos muros,
No jardim alguém tenta calar o apelo
De um amor recusado, ainda em chagas.
Mas na cascata a água, precipita-se,
Fresca num jorro rápido.

II

Acabou o Sol & o sino da tarde leva
Os deuses, um a um, a um passado provisório,
Donde irão emergir para o grande cisma
Do Inverno, o primeiro sobro do qual
Já se ouve subir os píncaros da serra.
Para a deusa branca chegou o fim do seu enigma,
A sua ruína coroa agora as ruínas do castelo:
Aqui morrem os deuses & as borboletas.
Rejeitados olhamos apenas,
Recíproco, um brilho no vazio.

M.S. LOURENÇO (1936-2009) – O Caminho dos Pisões

domingo, 23 de dezembro de 2012

CARTA DE AMOR

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e…
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar…
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração

JORGE SOUSA BRAGA (1957) – O Poeta NU

sábado, 22 de dezembro de 2012

A ÁRVORE DE NATAL


A árvore de Natal
não é uma árvore
que foi cortada
é o pinheiro-bravo
a entrar pela janela
com as raízes enraizadas
na terra
do jardim
do bungalow
ADÍLIA LOPES (1960) – Dobra

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

ASSIM ERA NOS TEMPOS

Assim era nos tempos.
E as pequenas estrelas caem agora dos ramos das oliveiras,
Sombra bifurcada cai escura no terraço
Mais negra que o gavião pairando
                a quem não importa a tua presença,
O estampado da sua asa é negro no telhado
E o estampado desapareceu com o seu grito.
Por isso leve é o teu peso sobre Tellus
Tua marca não mais funda talhada
Teu peso menor que a sombra
Tu porém roeste através da montanha,
               Os Dentes de Cila menos aguçados.
Encontraste ninho mais suave que cunnus
Ou encontraste melhor descanso
Tens plantação mais funda, o ano da tua morte
Traz-te rebento mais temporão?
Penetraste mais fundo na montanha?
[…]

EZRA POUND (1885-1972) – Do Caos À Ordem
(tradução e prefácio de Luísa M.L.Q. Campos e Daniel Pearlman)