terça-feira, 13 de janeiro de 2015

ZAQUEU

A árvore foi a forma de te ver
E desci para abrir a casa.
De me teres visitado e avistado
Entre os ramos
Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pássaro
Do sol à doçura do fruto-
Para me encontrares me deste
A pequenez.

[DANIEL FARIA (1971- 1999)]
[Poesia (edição de Vera Vouga)]
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ADOLESCENTE

A íntima cruzada da sua alma dispersa,
o sangue
insuportável, possuíam-no.
E era como um coro, rouco, gregoriano,
esse cavalgar perdido no deserto, esse amalgamar
de cruéis erros de cálculo, de posses
repetidas pela insónia.

Testava o tamanho do seu membro
como quem pretende contratar para si a morte,
ou temia esse glandular inflado do desejo
nas sevícias da infância
no corpo que cresce só e se repete na noite
numa fala só, isolada do mundo.

Tornado que foi público
o seu acesso ao sexo, a sua forma de estar por entre
a gente e nesse estranho lume caldeado,
tornaram-se os testículos
em sinais de fogo que pouco a pouco
se cobriam de água, impura,
magoada.

E depois disso, diz-se, nunca mais sorriu.

[ARMANDO SILVA CARVALHO (1938)]
(De Amore)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 11 de janeiro de 2015

NOVE, DEZ E ONZE DE JANEIRO

NUVENS

Antes de adormecer o corpo luta
pelas falsas imagens que transitam
para o sono
como para uma praia onde se salve
a existência náufraga da água
Nada do que ele vê é o que lhe
mostrou o tempo que o agride e ama
Como os olhos do sonho criará
a realidade em fogo que o amor
já não pode alcançar
então as nuvens através das
quais o mundo volta aos olhos
crescem até que a tempestade mate
todo o passado

[GASTÃO CRUZ (1941)]
[Os Poemas (1960 - 2006)]


ASCESE

Há os que se deitam sobre a relva
Como sombras que dormem sobre túmulos.
tu, porém, dormes sobre a morte
A longa ausência que há dentro dos poemas

[DANIEL FARIA  (1971 - 1999)]
[Poesia (edição de Vera Vouga)]


CORPO

que te seja leve o peso das estrelas
e da tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

[AL BERTO (1948 - 1997)]
[Vigílias (selecção e prólogo de José Agostinho Baptista)]
(in, todos os três, em Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

CERTA VEZ NA NOITE, RUIVAMENTE...

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada
Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza,
Que e lembro não sei d'Onde - a voz de uma Princesa
Bailando meia nua entre clarões de Espada.

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
E bêbada de Si, arfante de Beleza,
Acera os seios nus, descobre o sexo... Reza
O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...

Entanto nunca a vi mesmo em visão. Somente
A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim
Não lhe desejo a carne - a carne inexistente...

É só de voz-em-cio a bailadeira astral -
E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total,
É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...

                                               Lisboa, 1914 - janeiro 31.

[MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890 - 1916)]
(Verso e Prosa / edição de Fernando Cabral Martins)
(in Poemário Assírio  Alvim 2013)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

UM INSECTO

UM INSECTO desajeitado, muito maluco,
sobrevoou a folha e estatelou-se
na pequena poça de água formada
pelas gotas que iam caindo
uma a uma devagar. vindo
do nada, o frenesi de uma imagem
irresistível que é preciso captar
ataca pela base e chega depois
aos dedos, faz descobrir o uso doméstico
de uma metáfora e escrever,
porque é uma coisa que ninguém
pode ouvir, coisas deste género:
parece a minha vida, com a infância
a pular sobre a adolescência
e a estatelar-se redonda aí por essa idade
em que se sente a necessidade
de ser parte de um casal, em que se acha
mesmo que ser parte de um casal
é a coisa melhor do mundo.
Não se imagine o poema, imagine-se
o diálogo teatral, com a réplica numa ira
tradicional, ligada às impossibilidades
do ser, a plenos pulmões uma raiva
que não se sabe bem de onde vem.

[HELDER MOURA PEREIRA (1949)]
(Se as Coisas Não Fossem o que São)
(in Poemário Assírio & Alvim, 2013)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O SOL

acende as árvores na luz e no equilíbrio dos mundos
e imprime o seu leve gesto na tua retina; em resposta
as árvores, com a sua sombra, desenham, na parede
branca, e sonham, nas tuas pálpebras descendo,


uma escrita oriental, levemente dançando.

[MANUEL GUSMÃO (1945)]
(Pequeno Tratado das Figuras)
(in Poemário Assírio Alvim 2014)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A LABAREDA

A LABAREDA da estrela oculta a estrela, numa
rebentação de luz
a camisa oculta a camisa, e o sangue às riscas
gira e brilha no fundo da camisa contra a estrela:
que te abalam do direito adentro ao esquerdo:
o choque púrpura, o ascensional
néon ardendo
- ?e como é que isto é um segredo? -
a mão oculta-se na queimadura a cada faísca da folha
- ?mas como se escreve o sentido? -
o sangue que o escreve oculta o sangue e o escrito
- ?e então como se oculta e desoculta
isto: a estrela que te devora e de que tremes todo,
bêbado e nocturno?

[HERBERTO HELDER (1930)]
(Ofício Cantante)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)