segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

FONTE

I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo --
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maça tornava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

[HERBERTO HELDER (1930)]
(Ofício Cantante)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 18 de janeiro de 2015

DOM DO POEMA

Trago-te de Idumeia a filha duma noite!
Negra, de asa a sangrar, sem plumas e sem cor,
Pelo vidro a arder de arómatas e ouro
Pelas janelas frias, ai de nós! sempre foscas,
A aurora se lançou sobre a lâmpada angélica.
Palmas! E quando ela exibiu a relíquia
Ao pai a esboçar um sorriso inimigo
A solidão azul e estéril fremiu.
Ó mulher embalando a filha e a inocência
Dos pés frios, acolhe o horrível nascimento:
E de voz a imitar a viola e o cravo
Com o dedo já seco o seio premirás
Por que escorre a mulher tão branca e sibilina
Para o lábio voraz do ar azul e virgem?

[STÉPHANE MALLARMÉ (1842 - 1898)]
(Poesias - tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

IMENSO...

IMENSO sobre a melancolia das famílias o trovão faz
estremecer as cabeças citadinas,
enquanto uma veia pulsa,
desditosa do dia.

Terás compaixão de quem assim se verga e devagar
resvala para o vácuo das lâmpadas?

Nesta cama de trevas recordas a alegria, algures no
início das fontes.
Infância, sal de toda a cegueira e cegos os navios.

Fazes nascer o fogo.
É madrugada nos declives.
Labaredas de incenso consomem as tuas mãos, de repente
sobre o mundo.

Íngremes, os degraus tremeluzem ao alto, onde a palavra
de deus desenha uma cicatriz luminosa
quando o galo canta.

[JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA (1948)]
(Biografia)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

ZAQUEU

A árvore foi a forma de te ver
E desci para abrir a casa.
De me teres visitado e avistado
Entre os ramos
Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pássaro
Do sol à doçura do fruto-
Para me encontrares me deste
A pequenez.

[DANIEL FARIA (1971- 1999)]
[Poesia (edição de Vera Vouga)]
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ADOLESCENTE

A íntima cruzada da sua alma dispersa,
o sangue
insuportável, possuíam-no.
E era como um coro, rouco, gregoriano,
esse cavalgar perdido no deserto, esse amalgamar
de cruéis erros de cálculo, de posses
repetidas pela insónia.

Testava o tamanho do seu membro
como quem pretende contratar para si a morte,
ou temia esse glandular inflado do desejo
nas sevícias da infância
no corpo que cresce só e se repete na noite
numa fala só, isolada do mundo.

Tornado que foi público
o seu acesso ao sexo, a sua forma de estar por entre
a gente e nesse estranho lume caldeado,
tornaram-se os testículos
em sinais de fogo que pouco a pouco
se cobriam de água, impura,
magoada.

E depois disso, diz-se, nunca mais sorriu.

[ARMANDO SILVA CARVALHO (1938)]
(De Amore)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 11 de janeiro de 2015

NOVE, DEZ E ONZE DE JANEIRO

NUVENS

Antes de adormecer o corpo luta
pelas falsas imagens que transitam
para o sono
como para uma praia onde se salve
a existência náufraga da água
Nada do que ele vê é o que lhe
mostrou o tempo que o agride e ama
Como os olhos do sonho criará
a realidade em fogo que o amor
já não pode alcançar
então as nuvens através das
quais o mundo volta aos olhos
crescem até que a tempestade mate
todo o passado

[GASTÃO CRUZ (1941)]
[Os Poemas (1960 - 2006)]


ASCESE

Há os que se deitam sobre a relva
Como sombras que dormem sobre túmulos.
tu, porém, dormes sobre a morte
A longa ausência que há dentro dos poemas

[DANIEL FARIA  (1971 - 1999)]
[Poesia (edição de Vera Vouga)]


CORPO

que te seja leve o peso das estrelas
e da tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

[AL BERTO (1948 - 1997)]
[Vigílias (selecção e prólogo de José Agostinho Baptista)]
(in, todos os três, em Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

CERTA VEZ NA NOITE, RUIVAMENTE...

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada
Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza,
Que e lembro não sei d'Onde - a voz de uma Princesa
Bailando meia nua entre clarões de Espada.

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
E bêbada de Si, arfante de Beleza,
Acera os seios nus, descobre o sexo... Reza
O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...

Entanto nunca a vi mesmo em visão. Somente
A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim
Não lhe desejo a carne - a carne inexistente...

É só de voz-em-cio a bailadeira astral -
E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total,
É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...

                                               Lisboa, 1914 - janeiro 31.

[MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890 - 1916)]
(Verso e Prosa / edição de Fernando Cabral Martins)
(in Poemário Assírio  Alvim 2013)