sábado, 24 de janeiro de 2015

ARROGÂNCIA

Ignoradas setecentas
comeram-lhes a carne flagelada
os seus restos
atiraram para a câmara gelada
o ar,
sempre a correr entre afazeres
que ficou conspurcado com dizeres,
trás o ignóbil
que não sendo prémio Nobel
verborreia ementas
sobre entes esquecidos.
Ignoradas setecentas
comidas por malcheirosos
roedores
entre sofridos corredores
no patamar de umas escadas
arrumadas
por não passarem ao largo
de quem tem cargo
de surreal nefasto príncipe
da morte.
Ignoradas setecentas
sem formadas culpas
de vontades atadas
e sortes disparatadas
vagueiam na aleatória ordem
de uma famigerada oratória
de um coveiro imundo
que, inchado, pensa
que é seu o mundo.
Ignoradas setecentas
que vão engrossar
o exército de quem virá
nos resgatar.

[Carlos Sousa Ramos - 24.01.2015, 22h10]

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

DAS PENAS

Das penas
e suas algemas
se cria a barreira
da fronteira
fechada
fachada
de um futuro
obscuro
e o movimento, puro
estanque
se estanca
e não ultrapassa.

Movimento assim
com medo
sem tempo
no espaço
desliza
agoniza
e não chega
a nenhum lado.

Perde
a transformação
a transmutação
a possibilidade
de reconfiguração
numa aceleração
para
uma outra realidade.

[CARLOS SOUSA RAMOS _ a 17.07.2014]

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

SÉRGIO

Onde agora estás não alcançam
o clamor dos magistrados
nem a faca do assassino.
A tua própria morte não te pertence já,
é assunto nosso, desprovido e inerte.
Que faremos nós com o teu inúmero corpo,
como te diremos o que está a acontecer-te?

Fechou-se qualquer coisa qualquer porta
espessa e desabitada,
a faca pôs tudo como estava.

Sobram, inúteis, as lágrimas (mas isso que te importa?),
as últimas palavras, a última carta.
Se não fosse essa faca seria outra faca
noutra noite noutra autoestrada
e se não fosses tu seria outro
do mesmo modo vivo e morto.

[MANUEL ANTÓNIO PINA (1943 - 2012)]
(Poesia, Saudade da prosa - uma antologia pessoal)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

SAGRAÇÃO de Enki-du por sua mãe Ninsun

A ti que não és  raça dos cabeças negras
A ti ponho no chão da Egalmah
E ponho em ti o tirso do amável
E te dou nome Soldado de Anu
E te dou nome Pedra de Guilgamesh

Como o leão que na grande corrida mantém a cabeça imóvel
Sê barco do meu filho no mar perigoso
Na água a que não conhecemos o fundo
Na montanha do cedro a quem nunca ninguém viu a altura
Nos sete brilhos da Humbala, causa de todo o mal.

[EPOPEIA DE GUILGAMESH (C. SÉC. XXV A.C.]
(in Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro - tradução de Mário Cesariny)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

SE DA BOCA DE OSSIAN

Se da boca de Ossian canto e gesta
Não ouvi, nem provei do vinho antigo,
Por que vejo um recanto de floresta
Sob a lua da Escócia em sangue vivo?

Súbito no silêncio me golpeiam
Gritos de harpa e corvo em seu chamar,
As vestes dos guerreiros me lampejam
Pelos olhos sob o sangrento luar.

Maravilhada herança me proveio
De longínquos cantores: errantes sonhos,
De próximos e parentes por direito
Desprezamos as vozes enfadonhas.

Mais de um tesouro, os netos evitando,
Quem sabe dos bisnetos vá tombar;
O bardo comporá o alheio canto
E como seu o irá proclamar.

[OSSIP MANDELSTAM (1891 - 1938)]
(Guarda Minha Fala para Sempre - tradução de Nina Guerra e de Filipe Guerra)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

FONTE

I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo --
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maça tornava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

[HERBERTO HELDER (1930)]
(Ofício Cantante)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 18 de janeiro de 2015

DOM DO POEMA

Trago-te de Idumeia a filha duma noite!
Negra, de asa a sangrar, sem plumas e sem cor,
Pelo vidro a arder de arómatas e ouro
Pelas janelas frias, ai de nós! sempre foscas,
A aurora se lançou sobre a lâmpada angélica.
Palmas! E quando ela exibiu a relíquia
Ao pai a esboçar um sorriso inimigo
A solidão azul e estéril fremiu.
Ó mulher embalando a filha e a inocência
Dos pés frios, acolhe o horrível nascimento:
E de voz a imitar a viola e o cravo
Com o dedo já seco o seio premirás
Por que escorre a mulher tão branca e sibilina
Para o lábio voraz do ar azul e virgem?

[STÉPHANE MALLARMÉ (1842 - 1898)]
(Poesias - tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)