Dentro em meu coração faz dor,
Não sei donde essa dor me vem.
Auréola de ópio de torpor
Em torno ao meu falso desdém,
E laivos híbridos de horror
Como estrelas que o céu não tem.
Dentro em mim cai silêncio em flocos,
Parou o cavaleiro à porta...
E o frio, e o gelo em brancos blocos
Mancha de hirto a noite morta...
Meus tédios desiguais, sufoco-os
A minha alma jaz ela e absorta.
Dentro em meu pensamento é mágoa...
Corre por mim um arrepio
Que é como o afluxo à tona de água
De se saber que há sob o rio
O que... Brilha na noite a frágua
Onde o tédio bate o ócio a frio.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
UMA TENTATIVA DE PARTILHAR POEMAS, UM POR DIA. CORREU BEM EM 2012. NÃO CORREU BEM EM 2013 E 2014. SERÁ QUE ESTE ANO DE 2015 É ESPECIAL E FARÁ COM QUE, DE NOVO, SE CUMPRA O DESEJADO?
sábado, 14 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
ESCUTA-ME PIEDOSAMENTE
Escuta-me piedosamente
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
Teu dó, o teu quasi carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho...
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho em mim tanta pena
Qu'ria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim ou da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
Teu dó, o teu quasi carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho...
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho em mim tanta pena
Qu'ria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim ou da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
ANTÍGONA
Como te amo? Não sei de quantos vários modos
Eu de adoro mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te co'o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te co'o fervor dos meus preitos diários.
É puro o meu amor, como os puros sacrários;
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
É grande como os mar's altíssonos e vastos
É suave como o odor de lírios solitários.
Amor que rompe enfim os laços crus do ser;
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor tão leal que aumenta no sofrer;
Amor de tal feição que se na vida escura
É tão grande e nas mais vis ânsias de viver;
Muito maior será na paz da sepultura!
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar do Meu Desejo", Publicações D. Quixote, Fevereiro de 2015)
Eu de adoro mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te co'o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te co'o fervor dos meus preitos diários.
É puro o meu amor, como os puros sacrários;
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
É grande como os mar's altíssonos e vastos
É suave como o odor de lírios solitários.
Amor que rompe enfim os laços crus do ser;
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor tão leal que aumenta no sofrer;
Amor de tal feição que se na vida escura
É tão grande e nas mais vis ânsias de viver;
Muito maior será na paz da sepultura!
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar do Meu Desejo", Publicações D. Quixote, Fevereiro de 2015)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
UMA AMADA DESCONHECIDA...
(...) Uma amada desconhecida possui, sem dúvida, um
encanto mágico. Mas a tendência para o desconhecido,
para o indefinido, é extremamente perigosa e nefasta. As
revelações não se deixam conquistar pela força.
[NOVALIS (1772 - 1801)]
(Fragmentos de Novalis)
(selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
encanto mágico. Mas a tendência para o desconhecido,
para o indefinido, é extremamente perigosa e nefasta. As
revelações não se deixam conquistar pela força.
[NOVALIS (1772 - 1801)]
(Fragmentos de Novalis)
(selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
TRILOGIA A propósito da teoria das nuvens de Howard
ATMOSFERA
<<O mundo é tão vasto, espaçoso,
O céu tão amplo e majestoso!
Tudo quer ver o meu olhar,
Mas não sei como o imaginar>.
Para me encontrar no infinito,
Primeiro distingo, depois junto:
Grato está meu canto e seu lume
Ao homem que às nuvens deu nome.
[...]
[JOHANN WOLFGANG GOETHE (1749 - 1832)]
(O Jogo das Nuvens)
(selecção, tradução, prefácio e notas de João Barrento)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
<<O mundo é tão vasto, espaçoso,
O céu tão amplo e majestoso!
Tudo quer ver o meu olhar,
Mas não sei como o imaginar>.
Para me encontrar no infinito,
Primeiro distingo, depois junto:
Grato está meu canto e seu lume
Ao homem que às nuvens deu nome.
[...]
[JOHANN WOLFGANG GOETHE (1749 - 1832)]
(O Jogo das Nuvens)
(selecção, tradução, prefácio e notas de João Barrento)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
AMARGO DE BOCA
No âmago de um amargo de boca
se encontra uma qualquer idiota ideia
que se insinua, nos apanha, nos toca
e nos penetra na veia.
Ficamos angustiados, dependentes
querendo cada vez mais
que o desejo não se vá
que nos dê cabo dos dentes
e que, oxalá, não se ausente.
E o tempo passa e ficamos doentes
de raiva por não ter reagido
e mandado àquela parte o foragido
que nos veio empestar as mentes.
Ah!, quantas ideias do sério nos tiram
a paciência nos roubam
e as amarras nos colocam
nas vontades que ainda ficaram.
Ah!, e quantas vezes, a quente, agimos
e quantas vezes, sem conta, fugimos
e nos vamos enfiar no colo de alguém
que nos diz: pois, eu estou assim também?
No âmago de um amargo de boca
se perde um momento de felicidade.
[CARLOS SOUSA RAMOS]
se encontra uma qualquer idiota ideia
que se insinua, nos apanha, nos toca
e nos penetra na veia.
Ficamos angustiados, dependentes
querendo cada vez mais
que o desejo não se vá
que nos dê cabo dos dentes
e que, oxalá, não se ausente.
E o tempo passa e ficamos doentes
de raiva por não ter reagido
e mandado àquela parte o foragido
que nos veio empestar as mentes.
Ah!, quantas ideias do sério nos tiram
a paciência nos roubam
e as amarras nos colocam
nas vontades que ainda ficaram.
Ah!, e quantas vezes, a quente, agimos
e quantas vezes, sem conta, fugimos
e nos vamos enfiar no colo de alguém
que nos diz: pois, eu estou assim também?
No âmago de um amargo de boca
se perde um momento de felicidade.
[CARLOS SOUSA RAMOS]
domingo, 8 de fevereiro de 2015
O MEGHADUTA
Ah, sublime poeta, aquele primeiro santificado dia
De Asarh no qual, num desconhecido ano, escreveste
O teu Meghaduta! As tuas estrofes são
Como escuros leitos de sonoras nuvens, transformando a desgraça
De todos os amantes separados através do mundo
Em momentosa música.
Quem poderá falar das espessas nuvens desse dia,
Da alegria da luz, da fúria do vento
Sacudindo com o seu rugido os torreões de Ujjayini?
Quando as tormentosas nuvens colidiram, o seu estrondo libertou
Num único dia o coração aprisionado e aflito de milhares de anos
De abatimento, Lágrimas há muito reprimidas, quebrando
Os laços do tempo, parecem ter caído
Em cascata nesse dia, inundando as tuas nobres estrofes.
Será que cada exilado do mundo nesse dia
Levantou a cabeça, uniu as mãos, olhou a sua casa amada
E cantou às nuvens a mesma
Canção de saudade? Será que cada amante pediu a uma fresca e
liberta nuvem
Para levar nas suas asas uma magoada mensagem de amor
Até à janela distante onde a sua amada
Jazia no chão em desordenadas roupas,
Com o cabelo solto, com os olhos em lágrimas?
[...]
[ RABINDRANATH TAGORE (1861 - 1941)]
(Poesia)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
De Asarh no qual, num desconhecido ano, escreveste
O teu Meghaduta! As tuas estrofes são
Como escuros leitos de sonoras nuvens, transformando a desgraça
De todos os amantes separados através do mundo
Em momentosa música.
Quem poderá falar das espessas nuvens desse dia,
Da alegria da luz, da fúria do vento
Sacudindo com o seu rugido os torreões de Ujjayini?
Quando as tormentosas nuvens colidiram, o seu estrondo libertou
Num único dia o coração aprisionado e aflito de milhares de anos
De abatimento, Lágrimas há muito reprimidas, quebrando
Os laços do tempo, parecem ter caído
Em cascata nesse dia, inundando as tuas nobres estrofes.
Será que cada exilado do mundo nesse dia
Levantou a cabeça, uniu as mãos, olhou a sua casa amada
E cantou às nuvens a mesma
Canção de saudade? Será que cada amante pediu a uma fresca e
liberta nuvem
Para levar nas suas asas uma magoada mensagem de amor
Até à janela distante onde a sua amada
Jazia no chão em desordenadas roupas,
Com o cabelo solto, com os olhos em lágrimas?
[...]
[ RABINDRANATH TAGORE (1861 - 1941)]
(Poesia)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
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