Amor, co a esperança já perdida,
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que queres mais de mim, que destruída
Me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar-me, que não sei
Tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui alma, vida e esperança,
Despojos doces de meu bem passado,
Enquanto quis aquela que eu adoro:
Nelas podes tomar de mim vingança;
E se ainda não estás de mim vingado,
Contenta-te co as lágrimas que choro.
[LUÍS VAZ DE CAMÕES (1524? - 1580)]
(in "Do Infinito Mar do Meu Desejo")
UMA TENTATIVA DE PARTILHAR POEMAS, UM POR DIA. CORREU BEM EM 2012. NÃO CORREU BEM EM 2013 E 2014. SERÁ QUE ESTE ANO DE 2015 É ESPECIAL E FARÁ COM QUE, DE NOVO, SE CUMPRA O DESEJADO?
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
VERSOS
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso,branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...
[FLORBELA ESPANCA (1894 - 1930)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
ESQUECIMENTO
Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar'ceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... Que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era meu já me não lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...
[FLORBELA ESPANCA (1894 - 1930)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar'ceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... Que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era meu já me não lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...
[FLORBELA ESPANCA (1894 - 1930)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
ÚLTIMO SONETO
Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes - e vieste...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.
Em que seda de afagos me envolvi
quando entraste, nas tardes que apareceste -
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...
Pensei que fosse o meu teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...
E fugiste... Que importa? se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?...
[MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890 - 1916)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")]
Requeriam-te os tapetes - e vieste...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.
Em que seda de afagos me envolvi
quando entraste, nas tardes que apareceste -
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...
Pensei que fosse o meu teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...
E fugiste... Que importa? se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?...
[MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890 - 1916)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")]
domingo, 15 de fevereiro de 2015
CANÇÃO TRISTE
O sol, que dá nas ruas, não dá
No meu carinho.
Felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-se triste por ser risonho,
E não ser já.
Inútil brisa roçando leve
Já morta flor,
Saudando a um bem que não se teve
Vácuo sem dor,
Triste se é triste, e de o ser não finda
Quando é conforto
Como a mãe louca que embala ainda
Um filho morto.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
No meu carinho.
Felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-se triste por ser risonho,
E não ser já.
Inútil brisa roçando leve
Já morta flor,
Saudando a um bem que não se teve
Vácuo sem dor,
Triste se é triste, e de o ser não finda
Quando é conforto
Como a mãe louca que embala ainda
Um filho morto.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
sábado, 14 de fevereiro de 2015
DENTRO EM MEU CORAÇÃO FAZ DOR
Dentro em meu coração faz dor,
Não sei donde essa dor me vem.
Auréola de ópio de torpor
Em torno ao meu falso desdém,
E laivos híbridos de horror
Como estrelas que o céu não tem.
Dentro em mim cai silêncio em flocos,
Parou o cavaleiro à porta...
E o frio, e o gelo em brancos blocos
Mancha de hirto a noite morta...
Meus tédios desiguais, sufoco-os
A minha alma jaz ela e absorta.
Dentro em meu pensamento é mágoa...
Corre por mim um arrepio
Que é como o afluxo à tona de água
De se saber que há sob o rio
O que... Brilha na noite a frágua
Onde o tédio bate o ócio a frio.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
Não sei donde essa dor me vem.
Auréola de ópio de torpor
Em torno ao meu falso desdém,
E laivos híbridos de horror
Como estrelas que o céu não tem.
Dentro em mim cai silêncio em flocos,
Parou o cavaleiro à porta...
E o frio, e o gelo em brancos blocos
Mancha de hirto a noite morta...
Meus tédios desiguais, sufoco-os
A minha alma jaz ela e absorta.
Dentro em meu pensamento é mágoa...
Corre por mim um arrepio
Que é como o afluxo à tona de água
De se saber que há sob o rio
O que... Brilha na noite a frágua
Onde o tédio bate o ócio a frio.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
ESCUTA-ME PIEDOSAMENTE
Escuta-me piedosamente
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
Teu dó, o teu quasi carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho...
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho em mim tanta pena
Qu'ria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim ou da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
Teu dó, o teu quasi carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho...
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho em mim tanta pena
Qu'ria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim ou da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
Subscrever:
Mensagens (Atom)