Nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora
[HERBERTO HELDER (1930)]
(Servidões)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
UMA TENTATIVA DE PARTILHAR POEMAS, UM POR DIA. CORREU BEM EM 2012. NÃO CORREU BEM EM 2013 E 2014. SERÁ QUE ESTE ANO DE 2015 É ESPECIAL E FARÁ COM QUE, DE NOVO, SE CUMPRA O DESEJADO?
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
domingo, 22 de fevereiro de 2015
[SOZINHA NO BOSQUE]
Sozinha no bosque
Com meus pensamentos,
Calei as saudades,
Fiz tréguas a tormentos.
Olhei para a Lua,
Que as sombras rasgava,
Nas trémulas águas
Seus raios soltava.
Naquela torrente
Que vai despedida
Encontro assustada
A imagem da vida.
Do peito, em que as dores
Já iam cessar,
Revoa a tristeza,
E torno a pensar.
[MARQUESA DE ALORNA (1750 - 1839)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
Com meus pensamentos,
Calei as saudades,
Fiz tréguas a tormentos.
Olhei para a Lua,
Que as sombras rasgava,
Nas trémulas águas
Seus raios soltava.
Naquela torrente
Que vai despedida
Encontro assustada
A imagem da vida.
Do peito, em que as dores
Já iam cessar,
Revoa a tristeza,
E torno a pensar.
[MARQUESA DE ALORNA (1750 - 1839)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
sábado, 21 de fevereiro de 2015
[ONDE POREI MEUS OLHOS QUE NÃO VEJA]
Onde porei meus olhos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que para descansar parte me seja?
Já sei como s'engana quem deseja
Em vão amor firme contentamento
De que nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.
Mas ainda sobre claro desengano
Assim me traz est'alma sogigada,
Que dele está prendendo o meu desejo.
E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada,
Que, enquanto mais me chego, menos vejo.
[DIOGO BERNARDES (1530? - 1596?)]
(in "Do Infinito Mar do Meu Desejo")
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que para descansar parte me seja?
Já sei como s'engana quem deseja
Em vão amor firme contentamento
De que nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.
Mas ainda sobre claro desengano
Assim me traz est'alma sogigada,
Que dele está prendendo o meu desejo.
E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada,
Que, enquanto mais me chego, menos vejo.
[DIOGO BERNARDES (1530? - 1596?)]
(in "Do Infinito Mar do Meu Desejo")
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
[CLAROS OLHOS AZUIS, OLHOS FERMOSOS,]
Claros olhos azuis, olhos fermosos,
Que o lume destes meus escurecestes;
Olhos que o mesmo amor de amor vencestes
Cos vivos raios sempre vitoriosos;
Olhos serenos, olhos venturosos,
Que ser luz de tal gesto merecestes,
Ditosos em render quanto rendestes,
E em nunca ser rendidos mais ditosos;
Que mour'eu por vos ver, e que vos traga
Nas meninas dos meus perpetuamente
Cousa é que justamente amor ordena.
Mas, que de vós não tenha mais que a pena
Com que amor tanta fé tão mal me paga,
Nem o diz a razão, nem o consente.
[LUÍS VAZ DE CAMÕES (1524? - 1580)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
Que o lume destes meus escurecestes;
Olhos que o mesmo amor de amor vencestes
Cos vivos raios sempre vitoriosos;
Olhos serenos, olhos venturosos,
Que ser luz de tal gesto merecestes,
Ditosos em render quanto rendestes,
E em nunca ser rendidos mais ditosos;
Que mour'eu por vos ver, e que vos traga
Nas meninas dos meus perpetuamente
Cousa é que justamente amor ordena.
Mas, que de vós não tenha mais que a pena
Com que amor tanta fé tão mal me paga,
Nem o diz a razão, nem o consente.
[LUÍS VAZ DE CAMÕES (1524? - 1580)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
[AMOR, CO A ESPERANÇA JÁ PERDIDA]
Amor, co a esperança já perdida,
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que queres mais de mim, que destruída
Me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar-me, que não sei
Tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui alma, vida e esperança,
Despojos doces de meu bem passado,
Enquanto quis aquela que eu adoro:
Nelas podes tomar de mim vingança;
E se ainda não estás de mim vingado,
Contenta-te co as lágrimas que choro.
[LUÍS VAZ DE CAMÕES (1524? - 1580)]
(in "Do Infinito Mar do Meu Desejo")
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que queres mais de mim, que destruída
Me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar-me, que não sei
Tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui alma, vida e esperança,
Despojos doces de meu bem passado,
Enquanto quis aquela que eu adoro:
Nelas podes tomar de mim vingança;
E se ainda não estás de mim vingado,
Contenta-te co as lágrimas que choro.
[LUÍS VAZ DE CAMÕES (1524? - 1580)]
(in "Do Infinito Mar do Meu Desejo")
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
VERSOS
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso,branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...
[FLORBELA ESPANCA (1894 - 1930)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
ESQUECIMENTO
Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar'ceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... Que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era meu já me não lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...
[FLORBELA ESPANCA (1894 - 1930)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar'ceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... Que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era meu já me não lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...
[FLORBELA ESPANCA (1894 - 1930)]
(in "Do Infinito Mar Do Meu Desejo")
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