sexta-feira, 13 de março de 2015

[O PRÓPRIO SONHO]

          O próprio sonho me castiga. Adquiri nele tal lucidez que
vejo como real cada coisa que sonho. Eu perdi, portanto, tudo
quanto a valorizava como sonhada.
          Sonho-me famoso? Sinto todo o despimento que há na
glória, toda a perda da intimidade e do anonimato com que ela
é dolorosa para connosco.

[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Livro do Desassossego - composto por Bernardo Soares,
ajudante de guarda- livros na cidade de Lisboa)
(edição de Richard Zenith)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 12 de março de 2015

[NÃO PERSCRUTES]

Não perscrutes o teu anónimo futuro,
Lídia, é igual o futuro perscrutado
         Ao que não perscrutarás,
         Quem o deu, o deu feito.

Disformes sonhos antecipam coisas
Que serão piores que os disformes sonhos.
         No temor do futuro
         Nos futuros perscrutamos (?).

Sabe ver só até o horizonte
E o dia, memora da flor hesterna
         Mais do que melhor fruto
         Que talvez não colhamos.

[RICARDO REIS ( FERNANDO PESSOA) - (1888 - 1935)]
Poesia
(edição de Manuela Parreira da Silva)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 11 de março de 2015

[ESTOU]

Estou a um palmo da parede. Pergunto - se queres saber o
             que oiço -
O que disseste a Elias?: Elias
O que fazes aqui?

Sim, alteio os meus olhos
Conto-te o que nunca escrevo nos muros
Junto-me aos animais com sede

Estou a um palmo do teu palmo e depois
Não estás nas águas nem na sede ou no teu nome

Estou a um plano do teu silêncio e alteio
O silêncio. A boca mais alta do meu grito

[DANIEL FARIA (1971 - 1999)]
Poesia
(edição de Vera Vouga)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

segunda-feira, 9 de março de 2015

[NA MEIA NOITE]

Na meia noite
das cidades interiores
em ruínas,
a um golpe da tua luz,
rebentarão as velhas almas
como vulcões maduros
ou metais saturados
enfurecendo as minas.

E enquanto a lua de vinagre
revolver num vómito
as alturas,
hão-de passar como um arrepio
para logo morrerem,
estremecentes e roxas,
as unhas da volúpia
na pele das coisas puras.

[CARLOS DE OLIVEIRA (1921 - 1981)]
(Trabalho Poético)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

[A INTELIGÊNCIA É UM ESPAÇO]

A inteligência é um espaço
que inviabiliza o tempo.
E acolhe, no entanto,
todo o visível concreto
para o devolver abstracto
do real. E mais objecto.
Porque, mundo enfim, e estado
de terra e conhecimento,
é anterior a o pensarmos
e só depois tema. Aberto
ao invisível trabalho
que se obstina. Toma alento
e vai subindo. Até o espaço
da inteligência e do tempo
se volverem num só alto
país de conhecimento.

[FERNANDO ECHEVARRÍA]
(Categorias E Outras Paisagens)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

[INVERNO] E [LUZ DE NEVE]

Hoje, dois poemas:

INVERNO

Folhas mortas, espezinhadas
na lama do passeio.

A luz perdida das nervuras.

Dorsos que estalam
ao partir.

No mês passado
ainda rolavam
com a ventania.


LUZ DE NEVE


Uma luz de neve,
horizontal e fria.

Sem destino algum,
ofusca
e cega.

Onde não há abetos,
nem pistas de alces,
nem ravinas por perto.

Vazia duna de luz
perdida.

A luz da neve.

[JOSÉ MANUEL FERREIRA LOPES]

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

[NO MEU EDEN]

No meu Eden todos observamos rituais compulsivos e
tabus supersticiosos, mas não temos moral: na sua Nova
Jerusalém os templos estarão vazios e todos serão devotos
das virtudes racionais.

[W. H. AUDEN (1907 - 1973)]
(O Massacre dos Inocentes -uma antologia)
(tradução de José Alberto Oliveira)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)