O próprio sonho me castiga. Adquiri nele tal lucidez que
vejo como real cada coisa que sonho. Eu perdi, portanto, tudo
quanto a valorizava como sonhada.
Sonho-me famoso? Sinto todo o despimento que há na
glória, toda a perda da intimidade e do anonimato com que ela
é dolorosa para connosco.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Livro do Desassossego - composto por Bernardo Soares,
ajudante de guarda- livros na cidade de Lisboa)
(edição de Richard Zenith)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
UMA TENTATIVA DE PARTILHAR POEMAS, UM POR DIA. CORREU BEM EM 2012. NÃO CORREU BEM EM 2013 E 2014. SERÁ QUE ESTE ANO DE 2015 É ESPECIAL E FARÁ COM QUE, DE NOVO, SE CUMPRA O DESEJADO?
sexta-feira, 13 de março de 2015
quinta-feira, 12 de março de 2015
[NÃO PERSCRUTES]
Não perscrutes o teu anónimo futuro,
Lídia, é igual o futuro perscrutado
Ao que não perscrutarás,
Quem o deu, o deu feito.
Disformes sonhos antecipam coisas
Que serão piores que os disformes sonhos.
No temor do futuro
Nos futuros perscrutamos (?).
Sabe ver só até o horizonte
E o dia, memora da flor hesterna
Mais do que melhor fruto
Que talvez não colhamos.
[RICARDO REIS ( FERNANDO PESSOA) - (1888 - 1935)]
Poesia
(edição de Manuela Parreira da Silva)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
Lídia, é igual o futuro perscrutado
Ao que não perscrutarás,
Quem o deu, o deu feito.
Disformes sonhos antecipam coisas
Que serão piores que os disformes sonhos.
No temor do futuro
Nos futuros perscrutamos (?).
Sabe ver só até o horizonte
E o dia, memora da flor hesterna
Mais do que melhor fruto
Que talvez não colhamos.
[RICARDO REIS ( FERNANDO PESSOA) - (1888 - 1935)]
Poesia
(edição de Manuela Parreira da Silva)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
quarta-feira, 11 de março de 2015
[ESTOU]
Estou a um palmo da parede. Pergunto - se queres saber o
que oiço -
O que disseste a Elias?: Elias
O que fazes aqui?
Sim, alteio os meus olhos
Conto-te o que nunca escrevo nos muros
Junto-me aos animais com sede
Estou a um palmo do teu palmo e depois
Não estás nas águas nem na sede ou no teu nome
Estou a um plano do teu silêncio e alteio
O silêncio. A boca mais alta do meu grito
[DANIEL FARIA (1971 - 1999)]
Poesia
(edição de Vera Vouga)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
que oiço -
O que disseste a Elias?: Elias
O que fazes aqui?
Sim, alteio os meus olhos
Conto-te o que nunca escrevo nos muros
Junto-me aos animais com sede
Estou a um palmo do teu palmo e depois
Não estás nas águas nem na sede ou no teu nome
Estou a um plano do teu silêncio e alteio
O silêncio. A boca mais alta do meu grito
[DANIEL FARIA (1971 - 1999)]
Poesia
(edição de Vera Vouga)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
segunda-feira, 9 de março de 2015
[NA MEIA NOITE]
Na meia noite
das cidades interiores
em ruínas,
a um golpe da tua luz,
rebentarão as velhas almas
como vulcões maduros
ou metais saturados
enfurecendo as minas.
E enquanto a lua de vinagre
revolver num vómito
as alturas,
hão-de passar como um arrepio
para logo morrerem,
estremecentes e roxas,
as unhas da volúpia
na pele das coisas puras.
[CARLOS DE OLIVEIRA (1921 - 1981)]
(Trabalho Poético)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
das cidades interiores
em ruínas,
a um golpe da tua luz,
rebentarão as velhas almas
como vulcões maduros
ou metais saturados
enfurecendo as minas.
E enquanto a lua de vinagre
revolver num vómito
as alturas,
hão-de passar como um arrepio
para logo morrerem,
estremecentes e roxas,
as unhas da volúpia
na pele das coisas puras.
[CARLOS DE OLIVEIRA (1921 - 1981)]
(Trabalho Poético)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
[A INTELIGÊNCIA É UM ESPAÇO]
A inteligência é um espaço
que inviabiliza o tempo.
E acolhe, no entanto,
todo o visível concreto
para o devolver abstracto
do real. E mais objecto.
Porque, mundo enfim, e estado
de terra e conhecimento,
é anterior a o pensarmos
e só depois tema. Aberto
ao invisível trabalho
que se obstina. Toma alento
e vai subindo. Até o espaço
da inteligência e do tempo
se volverem num só alto
país de conhecimento.
[FERNANDO ECHEVARRÍA]
(Categorias E Outras Paisagens)
que inviabiliza o tempo.
E acolhe, no entanto,
todo o visível concreto
para o devolver abstracto
do real. E mais objecto.
Porque, mundo enfim, e estado
de terra e conhecimento,
é anterior a o pensarmos
e só depois tema. Aberto
ao invisível trabalho
que se obstina. Toma alento
e vai subindo. Até o espaço
da inteligência e do tempo
se volverem num só alto
país de conhecimento.
[FERNANDO ECHEVARRÍA]
(Categorias E Outras Paisagens)
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
[INVERNO] E [LUZ DE NEVE]
Hoje, dois poemas:
INVERNO
Folhas mortas, espezinhadas
na lama do passeio.
A luz perdida das nervuras.
Dorsos que estalam
ao partir.
No mês passado
ainda rolavam
com a ventania.
na lama do passeio.
A luz perdida das nervuras.
Dorsos que estalam
ao partir.
No mês passado
ainda rolavam
com a ventania.
LUZ DE NEVE
Uma luz de neve,
horizontal e fria.
Sem destino algum,
ofusca
e cega.
Onde não há abetos,
nem pistas de alces,
nem ravinas por perto.
Vazia duna de luz
perdida.
A luz da neve.
horizontal e fria.
Sem destino algum,
ofusca
e cega.
Onde não há abetos,
nem pistas de alces,
nem ravinas por perto.
Vazia duna de luz
perdida.
A luz da neve.
[JOSÉ MANUEL FERREIRA LOPES]
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
[NO MEU EDEN]
No meu Eden todos observamos rituais compulsivos e
tabus supersticiosos, mas não temos moral: na sua Nova
Jerusalém os templos estarão vazios e todos serão devotos
das virtudes racionais.
[W. H. AUDEN (1907 - 1973)]
(O Massacre dos Inocentes -uma antologia)
(tradução de José Alberto Oliveira)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
tabus supersticiosos, mas não temos moral: na sua Nova
Jerusalém os templos estarão vazios e todos serão devotos
das virtudes racionais.
[W. H. AUDEN (1907 - 1973)]
(O Massacre dos Inocentes -uma antologia)
(tradução de José Alberto Oliveira)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
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