sexta-feira, 20 de março de 2015

[A VANTAGEM]

A vantagem dos símbolos
é que não incomodam ninguém.


[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

quinta-feira, 19 de março de 2015

AS VOZES

A infância vem
pé ante pé
sob as escadas
e bate à porta

- Quem é?
- É a mãe morta?
- São coisas passadas
- Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?

[MANUEL ANTÓNIO PINA (1943 - 2012)]
(Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

quarta-feira, 18 de março de 2015

O SINEIRO

Enquanto o sino acorda a sua voz tão clara
Ao ar puro e profundo e límpido do dia
E aflora a criança, solícita, a lançar-lhe
Entre a alfazema e o timo a sua avé-maria,

O sineiro que a ave, ao alumiá-la, roça,
Tristemente postado, engrolando o latim,
Na pedra a retesar, por séculos, a corda,
Não ouve mais que um eco a soar no infinito.

Sou esse homem. Mas ai! da noite desejante
Bem posso ressoar, puxando, o Ideal:
Dos pecados só treme uma nobre plumagem,

E a voz só me vem em soluços e vã!
Mas um dia, cansado de puxar, puxar,
Hei-de a pedra tirar, Satã, e enforcar-me.

[STÉPHANE MALLARMÉ (1842 - 1898)]
(Poesias)
(tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

terça-feira, 17 de março de 2015

PERGUNTA DE AMOR

E tudo isto é verdade,
Meu querido amigo?
Que a luz do relâmpago nos meus olhos
Faz as nuvens do teu coração explodirem e arderem,
É verdade?
Que os meus doces lábios são vermelhos como uma jovem
              e ruborizada noiva,
Meu querido amigo,
É verdade?

Que uma árvore do paraíso floresce dentro de mim,
Que os meus passos soam como vinas debaixo de mim,
É verdade?
Que a noite derrama gotas de orvalho quando me vê,
Que a alvorada me rodeia com a luza das delícias,
É verdade?
Que o toque da minha face quente intoxica a brisa,
Meu querido amigo,
É verdade?

Que a luz do dia se esconde na escuridão do meu cabelo,
Que os meus braços abrigam a vida e a morte no seu poder,
É verdade?
[...]

[RABINDRANATH TAGORE (1861 -1941)]
(Poesia)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

segunda-feira, 16 de março de 2015

HORIZONTE

Cresces muito sobre a incerteza do tempo,
quando todos se afastam.
Manejas perfeitamente as armas brancas e
bates, intempestivamente,
às portas negras do último homem.

És a lâmpada infinita que se ergue no horizonte.
E, sobre as tempestades,
não sei se verei o amanhecer.
Canto, preparo os bálsamos, murmuro cem vezes
uma prece,
uma magia, com as vozes que nunca esqueci.
Já não falta muito para que toques a minha fronte,
a sua febre mortal.

[JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA (1948)]
(Quatro Luas)
(in Poemário Assírio & Alvim 

domingo, 15 de março de 2015

A UM JOVEM POETA

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

[MANUEL ANTÓNIO PINA]
(Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

sábado, 14 de março de 2015

VAZIO NO MEIO DO MAR

Quem ama o tempo como eu nesta manha de ruídos
que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?

Um tempo que se curva,
como o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.

[ARMANDO SILVA CARVALHO (1938)]
(De Amore)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)