A vantagem dos símbolos
é que não incomodam ninguém.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
UMA TENTATIVA DE PARTILHAR POEMAS, UM POR DIA. CORREU BEM EM 2012. NÃO CORREU BEM EM 2013 E 2014. SERÁ QUE ESTE ANO DE 2015 É ESPECIAL E FARÁ COM QUE, DE NOVO, SE CUMPRA O DESEJADO?
sexta-feira, 20 de março de 2015
quinta-feira, 19 de março de 2015
AS VOZES
A infância vem
pé ante pé
sob as escadas
e bate à porta
- Quem é?
- É a mãe morta?
- São coisas passadas
- Não é ninguém
Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?
[MANUEL ANTÓNIO PINA (1943 - 2012)]
(Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
pé ante pé
sob as escadas
e bate à porta
- Quem é?
- É a mãe morta?
- São coisas passadas
- Não é ninguém
Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?
[MANUEL ANTÓNIO PINA (1943 - 2012)]
(Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
quarta-feira, 18 de março de 2015
O SINEIRO
Enquanto o sino acorda a sua voz tão clara
Ao ar puro e profundo e límpido do dia
E aflora a criança, solícita, a lançar-lhe
Entre a alfazema e o timo a sua avé-maria,
O sineiro que a ave, ao alumiá-la, roça,
Tristemente postado, engrolando o latim,
Na pedra a retesar, por séculos, a corda,
Não ouve mais que um eco a soar no infinito.
Sou esse homem. Mas ai! da noite desejante
Bem posso ressoar, puxando, o Ideal:
Dos pecados só treme uma nobre plumagem,
E a voz só me vem em soluços e vã!
Mas um dia, cansado de puxar, puxar,
Hei-de a pedra tirar, Satã, e enforcar-me.
[STÉPHANE MALLARMÉ (1842 - 1898)]
(Poesias)
(tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
Ao ar puro e profundo e límpido do dia
E aflora a criança, solícita, a lançar-lhe
Entre a alfazema e o timo a sua avé-maria,
O sineiro que a ave, ao alumiá-la, roça,
Tristemente postado, engrolando o latim,
Na pedra a retesar, por séculos, a corda,
Não ouve mais que um eco a soar no infinito.
Sou esse homem. Mas ai! da noite desejante
Bem posso ressoar, puxando, o Ideal:
Dos pecados só treme uma nobre plumagem,
E a voz só me vem em soluços e vã!
Mas um dia, cansado de puxar, puxar,
Hei-de a pedra tirar, Satã, e enforcar-me.
[STÉPHANE MALLARMÉ (1842 - 1898)]
(Poesias)
(tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
terça-feira, 17 de março de 2015
PERGUNTA DE AMOR
E tudo isto é verdade,
Meu querido amigo?
Que a luz do relâmpago nos meus olhos
Faz as nuvens do teu coração explodirem e arderem,
É verdade?
Que os meus doces lábios são vermelhos como uma jovem
e ruborizada noiva,
Meu querido amigo,
É verdade?
Que uma árvore do paraíso floresce dentro de mim,
Que os meus passos soam como vinas debaixo de mim,
É verdade?
Que a noite derrama gotas de orvalho quando me vê,
Que a alvorada me rodeia com a luza das delícias,
É verdade?
Que o toque da minha face quente intoxica a brisa,
Meu querido amigo,
É verdade?
Que a luz do dia se esconde na escuridão do meu cabelo,
Que os meus braços abrigam a vida e a morte no seu poder,
É verdade?
[...]
[RABINDRANATH TAGORE (1861 -1941)]
(Poesia)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
Meu querido amigo?
Que a luz do relâmpago nos meus olhos
Faz as nuvens do teu coração explodirem e arderem,
É verdade?
Que os meus doces lábios são vermelhos como uma jovem
e ruborizada noiva,
Meu querido amigo,
É verdade?
Que uma árvore do paraíso floresce dentro de mim,
Que os meus passos soam como vinas debaixo de mim,
É verdade?
Que a noite derrama gotas de orvalho quando me vê,
Que a alvorada me rodeia com a luza das delícias,
É verdade?
Que o toque da minha face quente intoxica a brisa,
Meu querido amigo,
É verdade?
Que a luz do dia se esconde na escuridão do meu cabelo,
Que os meus braços abrigam a vida e a morte no seu poder,
É verdade?
[...]
[RABINDRANATH TAGORE (1861 -1941)]
(Poesia)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
segunda-feira, 16 de março de 2015
HORIZONTE
Cresces muito sobre a incerteza do tempo,
quando todos se afastam.
Manejas perfeitamente as armas brancas e
bates, intempestivamente,
às portas negras do último homem.
És a lâmpada infinita que se ergue no horizonte.
E, sobre as tempestades,
não sei se verei o amanhecer.
Canto, preparo os bálsamos, murmuro cem vezes
uma prece,
uma magia, com as vozes que nunca esqueci.
Já não falta muito para que toques a minha fronte,
a sua febre mortal.
[JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA (1948)]
(Quatro Luas)
(in Poemário Assírio & Alvim
quando todos se afastam.
Manejas perfeitamente as armas brancas e
bates, intempestivamente,
às portas negras do último homem.
És a lâmpada infinita que se ergue no horizonte.
E, sobre as tempestades,
não sei se verei o amanhecer.
Canto, preparo os bálsamos, murmuro cem vezes
uma prece,
uma magia, com as vozes que nunca esqueci.
Já não falta muito para que toques a minha fronte,
a sua febre mortal.
[JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA (1948)]
(Quatro Luas)
(in Poemário Assírio & Alvim
domingo, 15 de março de 2015
A UM JOVEM POETA
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
[MANUEL ANTÓNIO PINA]
(Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
[MANUEL ANTÓNIO PINA]
(Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
sábado, 14 de março de 2015
VAZIO NO MEIO DO MAR
Quem ama o tempo como eu nesta manha de ruídos
que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?
Um tempo que se curva,
como o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.
[ARMANDO SILVA CARVALHO (1938)]
(De Amore)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?
Um tempo que se curva,
como o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.
[ARMANDO SILVA CARVALHO (1938)]
(De Amore)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
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