Muitas canções começam no fim, em cidades
estranhas. Sei
que a felicidade dos meses é ao meio dia e a força
de um homem é ao meio
da vida pura. Mas são muitas
as canções que começam no fim.
É no fim que secamente falam do ardor
ao meio
da cidade e da existência que se volta
para si, de rosto - tremente
e verde de sua ilusão. Canções cada vez
mais no seu fim , tão secas voltadas
imenso para trás. Para onde
é todo o poder. Conheço
horríveis canções cor de coisas transtornadas.
Canções ainda repletas de peixes, flechas, dedos
agudos abertos em torno do sexo.
Começam no fim do seu pensamento.
São para morrer na véspera, com um lento
pavor no coração e o povo
atónito por todos os lados. Porque o povo
não sabe que um homem morre antes da sua
última canção.
[HERBERTO HELDER (1930)]
(Ofício Cantante)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
UMA TENTATIVA DE PARTILHAR POEMAS, UM POR DIA. CORREU BEM EM 2012. NÃO CORREU BEM EM 2013 E 2014. SERÁ QUE ESTE ANO DE 2015 É ESPECIAL E FARÁ COM QUE, DE NOVO, SE CUMPRA O DESEJADO?
segunda-feira, 23 de março de 2015
domingo, 22 de março de 2015
[A NATUREZA]
A natureza
é a diferença entre a alma e Deus.
[FERNANDO PESSOA]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim, 2013)
é a diferença entre a alma e Deus.
[FERNANDO PESSOA]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim, 2013)
sábado, 21 de março de 2015
O DIA
O
dia nasceu quente
como
que a dizer
que
talvez fosse possível fazer
algo
com as palavras
que
se perfilavam na mente
fruto
do estado de ebulição
a
que as ideias, à procura de uma criação,
sujeitas
se encontravam.
O
dia assim o exigia,
há
muito, que muitos
a
isso se dedicavam
e
ele, qual vulcão sem tampa
sentia
que mais dia menos dia
expeliria
através
da pena conduzida
pela
sua mão indecisa, algo
do
qual não desdenharia.
Foi
crescendo o dia
foi,
a lava,
do
seu acordado desejo vulcânico,
em
crescendo,
subindo
as paredes
que
empacotavam o seu caminho,
até
que, já exausto,
pois
o que lhe saía
era
de uma atroz tristeza,
querendo
ele dar voz
à
beleza que sentia,
rasgou
os papéis
do
seu caderno pautado
não
sem antes gritar
….
maldito dia da poesia.
[Carlos
Sousa Ramos_21.03.2015]
P.S.:
Não vá alguém interpretar mal, este texto não é autobiográfico, não me sinto
assim, triste, depressivo, como o poeta do poema, bem pelo contrário.
sexta-feira, 20 de março de 2015
[A VANTAGEM]
A vantagem dos símbolos
é que não incomodam ninguém.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
é que não incomodam ninguém.
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
quinta-feira, 19 de março de 2015
AS VOZES
A infância vem
pé ante pé
sob as escadas
e bate à porta
- Quem é?
- É a mãe morta?
- São coisas passadas
- Não é ninguém
Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?
[MANUEL ANTÓNIO PINA (1943 - 2012)]
(Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
pé ante pé
sob as escadas
e bate à porta
- Quem é?
- É a mãe morta?
- São coisas passadas
- Não é ninguém
Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?
[MANUEL ANTÓNIO PINA (1943 - 2012)]
(Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
quarta-feira, 18 de março de 2015
O SINEIRO
Enquanto o sino acorda a sua voz tão clara
Ao ar puro e profundo e límpido do dia
E aflora a criança, solícita, a lançar-lhe
Entre a alfazema e o timo a sua avé-maria,
O sineiro que a ave, ao alumiá-la, roça,
Tristemente postado, engrolando o latim,
Na pedra a retesar, por séculos, a corda,
Não ouve mais que um eco a soar no infinito.
Sou esse homem. Mas ai! da noite desejante
Bem posso ressoar, puxando, o Ideal:
Dos pecados só treme uma nobre plumagem,
E a voz só me vem em soluços e vã!
Mas um dia, cansado de puxar, puxar,
Hei-de a pedra tirar, Satã, e enforcar-me.
[STÉPHANE MALLARMÉ (1842 - 1898)]
(Poesias)
(tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
Ao ar puro e profundo e límpido do dia
E aflora a criança, solícita, a lançar-lhe
Entre a alfazema e o timo a sua avé-maria,
O sineiro que a ave, ao alumiá-la, roça,
Tristemente postado, engrolando o latim,
Na pedra a retesar, por séculos, a corda,
Não ouve mais que um eco a soar no infinito.
Sou esse homem. Mas ai! da noite desejante
Bem posso ressoar, puxando, o Ideal:
Dos pecados só treme uma nobre plumagem,
E a voz só me vem em soluços e vã!
Mas um dia, cansado de puxar, puxar,
Hei-de a pedra tirar, Satã, e enforcar-me.
[STÉPHANE MALLARMÉ (1842 - 1898)]
(Poesias)
(tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
terça-feira, 17 de março de 2015
PERGUNTA DE AMOR
E tudo isto é verdade,
Meu querido amigo?
Que a luz do relâmpago nos meus olhos
Faz as nuvens do teu coração explodirem e arderem,
É verdade?
Que os meus doces lábios são vermelhos como uma jovem
e ruborizada noiva,
Meu querido amigo,
É verdade?
Que uma árvore do paraíso floresce dentro de mim,
Que os meus passos soam como vinas debaixo de mim,
É verdade?
Que a noite derrama gotas de orvalho quando me vê,
Que a alvorada me rodeia com a luza das delícias,
É verdade?
Que o toque da minha face quente intoxica a brisa,
Meu querido amigo,
É verdade?
Que a luz do dia se esconde na escuridão do meu cabelo,
Que os meus braços abrigam a vida e a morte no seu poder,
É verdade?
[...]
[RABINDRANATH TAGORE (1861 -1941)]
(Poesia)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
Meu querido amigo?
Que a luz do relâmpago nos meus olhos
Faz as nuvens do teu coração explodirem e arderem,
É verdade?
Que os meus doces lábios são vermelhos como uma jovem
e ruborizada noiva,
Meu querido amigo,
É verdade?
Que uma árvore do paraíso floresce dentro de mim,
Que os meus passos soam como vinas debaixo de mim,
É verdade?
Que a noite derrama gotas de orvalho quando me vê,
Que a alvorada me rodeia com a luza das delícias,
É verdade?
Que o toque da minha face quente intoxica a brisa,
Meu querido amigo,
É verdade?
Que a luz do dia se esconde na escuridão do meu cabelo,
Que os meus braços abrigam a vida e a morte no seu poder,
É verdade?
[...]
[RABINDRANATH TAGORE (1861 -1941)]
(Poesia)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
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