terça-feira, 31 de março de 2015

[O POETA]

O Poeta precisamente só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo.

[ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928 - 1953)]
(Poesia)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

segunda-feira, 30 de março de 2015

A ÁRVORE DA VIDA

A Árvore da Vida é adornada de belas flores
E em seu redor perfilam-se as mais garbosas hostes.
A sua crista domina o espaço imenso
E as planuras do céu recebem os frutos maduros.

Na ramaria, em glória pousa um bando de
esplendorosas aves
E as aves entoam  cânticos de perfeita harmonia.
As folhas não secam e as flores não murcham
E antes crescem sua beleza e abundância.

Belo é o bando das aves que guarda a árvore
Luminosas as cores brilhando em milhares de penas.
Sem temor nem pecado em serena alegria
Por cada pena as aves cantam mil melodias.

[IRLANDÊS - AUTOR DESCONHECIDO ( FINAL DO SÉCULO X)]
( in O Grito do Gamo - poemas celtas da fé e do sagrado)
(tradução de José Domingos Morais)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 29 de março de 2015

PORTAS FECHADAS

As sombras repetem-se
e chegam trémulas
ao pé das cidades.
Ninguém quer abrir as portas
com medo da epidemia.

O sangue desce das montanhas
e interna-se nos hospitais.
Nos quartéis choram os cavalos
e não querem ouvir falar de guerra,
têm más recordações,
pensam nas pradarias
e nas suas companheiras de amor.
Os cavalos são ternos
e olham com dor para os torturados.

De noite ouvem os gemidos
e os seus cascos batem
para espantar os mortos.

Assim é agora a epidemia do sangue.
Sobre os ombros dos vinte anos
a morte cruel caminha e é estrondo,
chama ou cinza arrastada pelo vento.

[MATILDE ESPINOSA (1910 – 2008)]
[in Um País que Sonha – cem anos de poseis colombiana (1865 – 1964)]
(selecção e prólogo de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice)

(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

sábado, 28 de março de 2015

[O MILAGRE]

O milagre é a preguiça de Deus, ou, antes, a preguiça que Lhe atribuímos, inventando o milagre.
                                                                                          BERNARDO SOARES

[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim, 2014)

sexta-feira, 27 de março de 2015

[O HOMEM PERFEITO]

O Homem perfeito deve viver, por assim dizer, em diversos lugares e em vários Homens, simultaneamente – é necessário que lhe estejam constantemente presentes múltiplos acontecimentos e um círculo mais vasto. Assim se forma, então, a verdadeira e grandiosa presença do espírito – que faz do Homem um verdadeiro cidadão do mundo e o estimula e fortalece em cada momento da sua vida, através das mais benéficas associações e o coloca na clara disposição de uma actividade lúcida.

[NOVALIS (1772 - 1801)]
(Fragmentos de Novalis)
(selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 26 de março de 2015

COMO COMEÇOU TUDO ISTO

Como começou tudo isto, e porque estou aqui
Neste balcão arqueado com a sua pintura castanha a desfazer-se?
Papegaai, Mezcal, Hennessey, Cerveza,
Duas escarradeiras viscosas, sem companhia a não ser o medo:
Medo da luz, da Primavera, do lamento
Das aves, e dos autocarros voando para longínquas paragens,
E dos estudantes que vão às corridas
E das raparigas que saltam com o vento nas suas caras,
Mas sem companhia, sem companhia a não ser o medo:
Medo da fonte que canta e de todas as flores
Que conhecem o sol e são meus inimigos.
E estar horas mortas?

[MALCOLM LOWRY (1909 - 1957)]
(As Cantinas e Outros Poemas de Álcool e do Mal)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013

quarta-feira, 25 de março de 2015

[cheirava mal]

cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,
requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes terrestres,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo e
       tudo,
que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrósia sutilíssima nas profundezas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o trespassava pela metade das músicas
- e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto
       as turvas águas últimas
se misturavam com as águas primeiras

[HERBERTO HELDER (1930 – 2015)]
(de Servidões, in Poemas Completos, porto Editora, 2014)

(publicado a 25.03.2015 no Jornal Público)