sexta-feira, 3 de abril de 2015

[JÁ FLAMEJA]

Já flameja a melancia. A noite
cai mais densa. E tu regressas
um tanto triste ao meu ardor.

[SANDRO PENNA (1906 - 1977)]
(No Brando Rumor da Vida)
(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

[A MÚSICA]

  A música une, os costumes separam. Pela união origina-se a amizade dos homens entre si, pela separação a consideração de uns pelos outros. Quando a música alcança uma importância demasiada, há negligência. Quando os costumes predominam em demasia, quebra-se o apreço e surge o alheamento.

[HUGO VON HOFMANNSTHAL (1874 – 1929)]
(Livro dos Amigos)
(tradução e prefácio de José A. Palma Carlos)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A HERANÇA

Da última vez que morri (e, querida, morro
Tantas vezes quantas de ti me aparto)
Ainda que tenha sido há uma hora apenas,
E as horas dos amantes sejam uma eternidade,
Consigo recordar, que eu
        Disse algo, e concedi algo
Que, apesar de morto me fez voltar, e obrigou a ser
O meu próprio executor e herança.

Ouvi-me falar: <<Diz-lhe já
        Que eu>> (ou seja tu, não eu)
<<Me matou>>; e quando me senti morrer
Deliberei enviar o meu coração depois de ter partido.
Mas – infeliz! – não encontrei lá nenhum,
        Quando me abri e procurei no sítio onde se guardam.
Matou-me outra vez que eu, sempre sincero
Em vida, na minha última vontade te defraudasse.

Se bem que encontrei algo semelhante a um coração,
        Mas tinha cores e cantos.
        Não era bom, nem era mau,
Não era fiel a ninguém, e alguns o partilhavam.
O melhor que se podia arranjar por arte
        Parecia; por isso, triste por nossas perdas,
Pretendi mandar este coração em vez do meu.
Mas oh, nenhum homem o podia segurar, porque era o teu.

[JOHN DONNE (1572 – 1631)
(Poemas Eróticos)
(tradução de Helena Barbas)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

terça-feira, 31 de março de 2015

[O POETA]

O Poeta precisamente só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo.

[ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928 - 1953)]
(Poesia)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

segunda-feira, 30 de março de 2015

A ÁRVORE DA VIDA

A Árvore da Vida é adornada de belas flores
E em seu redor perfilam-se as mais garbosas hostes.
A sua crista domina o espaço imenso
E as planuras do céu recebem os frutos maduros.

Na ramaria, em glória pousa um bando de
esplendorosas aves
E as aves entoam  cânticos de perfeita harmonia.
As folhas não secam e as flores não murcham
E antes crescem sua beleza e abundância.

Belo é o bando das aves que guarda a árvore
Luminosas as cores brilhando em milhares de penas.
Sem temor nem pecado em serena alegria
Por cada pena as aves cantam mil melodias.

[IRLANDÊS - AUTOR DESCONHECIDO ( FINAL DO SÉCULO X)]
( in O Grito do Gamo - poemas celtas da fé e do sagrado)
(tradução de José Domingos Morais)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 29 de março de 2015

PORTAS FECHADAS

As sombras repetem-se
e chegam trémulas
ao pé das cidades.
Ninguém quer abrir as portas
com medo da epidemia.

O sangue desce das montanhas
e interna-se nos hospitais.
Nos quartéis choram os cavalos
e não querem ouvir falar de guerra,
têm más recordações,
pensam nas pradarias
e nas suas companheiras de amor.
Os cavalos são ternos
e olham com dor para os torturados.

De noite ouvem os gemidos
e os seus cascos batem
para espantar os mortos.

Assim é agora a epidemia do sangue.
Sobre os ombros dos vinte anos
a morte cruel caminha e é estrondo,
chama ou cinza arrastada pelo vento.

[MATILDE ESPINOSA (1910 – 2008)]
[in Um País que Sonha – cem anos de poseis colombiana (1865 – 1964)]
(selecção e prólogo de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice)

(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

sábado, 28 de março de 2015

[O MILAGRE]

O milagre é a preguiça de Deus, ou, antes, a preguiça que Lhe atribuímos, inventando o milagre.
                                                                                          BERNARDO SOARES

[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim, 2014)