terça-feira, 14 de abril de 2015

PERIGO DE VIDA

É grande o risco da palavra no tempo
maior mesmo talvez que no mar
Eu fui à margem do dia despedir um amigo
e não houve no cais
iniciativa verbal que edificasse
uma só tenda para o nosso coração
Éramos peregrinos
que deixam a saudade de turistas
ausentes na rua de outono
Morríamos contra a curva dos dias
a morte rotativa e provisória

Tivesse a própria palavra lábios
e nenhum clima poderia
arrefecer-lhe o coração
Tivesse ela lábios e não seria
tão grave o risco no tempo e no mar

[RUY BELO (1933 – 1978)]
(Todos os Poemas)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 5 de abril de 2015

[À ESQUERDA)

À esquerda e a meia altura da folha colocada
na vertical, o artista desenhou um pulso
com a sua mão articulada, deitada aberta para trás.
Deixou-se ali à espera de algo que viria
nela poisar, apoiar-se, confiante, nela. E veio.
E agora está lá desde sempre: uma cabeça feminina
- firme e desenhada com a minúcia da ternura -
com aquele olhar
velado, em frente
que dá a ilusão de ser a ti que olha.

[MANUEL GUSMÃO (1945)]
(Pequeno Tratado das Figuras)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

sábado, 4 de abril de 2015

[O SOL VAI ALTO]

O sol vai alto
é cedo
a aragem forte
limpo, o céu
correm os pensamentos
colam-se à mente
a alma se destrói
nada rejuvenesce
fóssil é o ciclo
a mudança não aparece
desfalece a vontade
se definha o corpo
não pára, o tempo
o dia, desaparece
chega a noite
negra é a cor
os desejos, pintados de breu
nada se realiza
o sonho desliza
alguém acorda
para bem de um angustiado ser.


[CARLOS SOUSA RAMOS – 04.04.2015]

sexta-feira, 3 de abril de 2015

[JÁ FLAMEJA]

Já flameja a melancia. A noite
cai mais densa. E tu regressas
um tanto triste ao meu ardor.

[SANDRO PENNA (1906 - 1977)]
(No Brando Rumor da Vida)
(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

[A MÚSICA]

  A música une, os costumes separam. Pela união origina-se a amizade dos homens entre si, pela separação a consideração de uns pelos outros. Quando a música alcança uma importância demasiada, há negligência. Quando os costumes predominam em demasia, quebra-se o apreço e surge o alheamento.

[HUGO VON HOFMANNSTHAL (1874 – 1929)]
(Livro dos Amigos)
(tradução e prefácio de José A. Palma Carlos)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A HERANÇA

Da última vez que morri (e, querida, morro
Tantas vezes quantas de ti me aparto)
Ainda que tenha sido há uma hora apenas,
E as horas dos amantes sejam uma eternidade,
Consigo recordar, que eu
        Disse algo, e concedi algo
Que, apesar de morto me fez voltar, e obrigou a ser
O meu próprio executor e herança.

Ouvi-me falar: <<Diz-lhe já
        Que eu>> (ou seja tu, não eu)
<<Me matou>>; e quando me senti morrer
Deliberei enviar o meu coração depois de ter partido.
Mas – infeliz! – não encontrei lá nenhum,
        Quando me abri e procurei no sítio onde se guardam.
Matou-me outra vez que eu, sempre sincero
Em vida, na minha última vontade te defraudasse.

Se bem que encontrei algo semelhante a um coração,
        Mas tinha cores e cantos.
        Não era bom, nem era mau,
Não era fiel a ninguém, e alguns o partilhavam.
O melhor que se podia arranjar por arte
        Parecia; por isso, triste por nossas perdas,
Pretendi mandar este coração em vez do meu.
Mas oh, nenhum homem o podia segurar, porque era o teu.

[JOHN DONNE (1572 – 1631)
(Poemas Eróticos)
(tradução de Helena Barbas)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

terça-feira, 31 de março de 2015

[O POETA]

O Poeta precisamente só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo.

[ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928 - 1953)]
(Poesia)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)