quarta-feira, 22 de abril de 2015

[A CORAGEM]

A coragem que vence o medo tem mais elementos de grandeza que aquele que o não tem. Uma começa interiormente; outra é puramente exterior. A última faz frente ao perigo; a primeira faz frente, antes de tudo, ao próprio temor dentro da sua alma.

[FERNANDO PESSOA (1888 – 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)


terça-feira, 21 de abril de 2015

[AS FLORES NASCEM]

As flores nascem, amadurecem, completam-se,
abrem as corolas.
- De dentro de ti saem as flores do canto;
derrama-las sobre os homens, sobre eles as esparzes;
tu és um cantor!
- Fruí do canto, todos vós,
fruí, dançai, entre as flores respira o canto;
e eu, cantor, respiro no meu canto!

[América, Aztecas]
(versão de Herberto Helder)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

[ONDE TERÁ COMEÇADO]

Onde terá começado a metalização da fala?

uma porta em alvenaria dá acesso
à eira de misteriosos e profundos limos

onde terei esquecido a cicatriz azul da escrita?

uma flor invade os veios secos da pedra
incendeia-se antes de se diluir na poeira

onde terei dado de beber à melancolia da
há pistas estreitas de animal ferido pelas paredes memória?

o sangue transmutado em raríssimo metal
faz do coração e das veias a possível mina

onde vibrará a selvagem luminosidade dos pulsos?

dentro do sonho segui-las-emos ao amanhecer

onde se esconderá o diminuto rosto ainda vivo?

insondáveis são as catástrofes da alma
e da loucura que já não nos prende um ao outro

que destino nos revela a mão sem linha da vida?

escuto o bater do tempo sob as pálpebras
e o terrível som da máquina de escrever

         de <<Uma Existência de Papel>>: Os Dias Sem Ninguém, 1984/85

[AL BERTO (1948 – 1997)]
(Vigília)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 19 de abril de 2015

O PERFUME PRECIOSO (Lc 7,36-50)

Havia um vaso de perfume
em barro branco
e a mulher que se colocou de gatas
radiante por poder exibir a farta cabeleira
Mas ao quebrá-lo daquele modo aos pés do hóspede
misturou o nardo imprevistamente
com o cheiro de uma mulher que chora

O anfitrião especado observava, sem pronunciar um som
o mestre, porém, olhou-a com os seus olhos de cão meigo
a vagabundagem e a pobreza
eram direitos de quem entrou e saiu das trevas
para fazer da infelicidade um uso

Recordarei sempre aquele momento
perfeito fio de prumo
que indica o centro da terra

[JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA (1965)]
(Estação Central)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

ÁRVORE CINZENTA

No ribeiro quase seco
uma árvore
atormenta minha alma

creio que de lá

parte para anunciar a noite
o voo sonolento do noitibó

[MÁRIO RUI DE OLIVEIRA (1973)]
(Bairro Judaico)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A CHAVE

Deixo os mundos o das
palavras e o mundo
dos sinais que são os seres reais
confundirem-se
no meu presente dúbio procurando
para o poema um tema talvez desnecessário

Do meu tempo farão a chave procurada
a resposta que busco à confusão mortal
da língua que de ti e das coisas se afasta
Pedes a chave real para voltar à casa
e o nada
como a nuvem envolve a tua fala.

[GASTÃO CRUZ (1941)]
[Os Poemas (1960 - 2006)]
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

[DO CÓMICO]

Do cómico ao cósmico
fomos, viemos.
O pé do campeão
cortou a nossa meta.

[LUIZA NETO JORGE (1939 - 1989)]
(A Lume)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)