quinta-feira, 23 de abril de 2015

[DEUS É]

Deus é o existirmos e isto não ser tudo.

                                                    Bernardo Soares

[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

[A CORAGEM]

A coragem que vence o medo tem mais elementos de grandeza que aquele que o não tem. Uma começa interiormente; outra é puramente exterior. A última faz frente ao perigo; a primeira faz frente, antes de tudo, ao próprio temor dentro da sua alma.

[FERNANDO PESSOA (1888 – 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)


terça-feira, 21 de abril de 2015

[AS FLORES NASCEM]

As flores nascem, amadurecem, completam-se,
abrem as corolas.
- De dentro de ti saem as flores do canto;
derrama-las sobre os homens, sobre eles as esparzes;
tu és um cantor!
- Fruí do canto, todos vós,
fruí, dançai, entre as flores respira o canto;
e eu, cantor, respiro no meu canto!

[América, Aztecas]
(versão de Herberto Helder)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

[ONDE TERÁ COMEÇADO]

Onde terá começado a metalização da fala?

uma porta em alvenaria dá acesso
à eira de misteriosos e profundos limos

onde terei esquecido a cicatriz azul da escrita?

uma flor invade os veios secos da pedra
incendeia-se antes de se diluir na poeira

onde terei dado de beber à melancolia da
há pistas estreitas de animal ferido pelas paredes memória?

o sangue transmutado em raríssimo metal
faz do coração e das veias a possível mina

onde vibrará a selvagem luminosidade dos pulsos?

dentro do sonho segui-las-emos ao amanhecer

onde se esconderá o diminuto rosto ainda vivo?

insondáveis são as catástrofes da alma
e da loucura que já não nos prende um ao outro

que destino nos revela a mão sem linha da vida?

escuto o bater do tempo sob as pálpebras
e o terrível som da máquina de escrever

         de <<Uma Existência de Papel>>: Os Dias Sem Ninguém, 1984/85

[AL BERTO (1948 – 1997)]
(Vigília)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 19 de abril de 2015

O PERFUME PRECIOSO (Lc 7,36-50)

Havia um vaso de perfume
em barro branco
e a mulher que se colocou de gatas
radiante por poder exibir a farta cabeleira
Mas ao quebrá-lo daquele modo aos pés do hóspede
misturou o nardo imprevistamente
com o cheiro de uma mulher que chora

O anfitrião especado observava, sem pronunciar um som
o mestre, porém, olhou-a com os seus olhos de cão meigo
a vagabundagem e a pobreza
eram direitos de quem entrou e saiu das trevas
para fazer da infelicidade um uso

Recordarei sempre aquele momento
perfeito fio de prumo
que indica o centro da terra

[JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA (1965)]
(Estação Central)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

ÁRVORE CINZENTA

No ribeiro quase seco
uma árvore
atormenta minha alma

creio que de lá

parte para anunciar a noite
o voo sonolento do noitibó

[MÁRIO RUI DE OLIVEIRA (1973)]
(Bairro Judaico)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A CHAVE

Deixo os mundos o das
palavras e o mundo
dos sinais que são os seres reais
confundirem-se
no meu presente dúbio procurando
para o poema um tema talvez desnecessário

Do meu tempo farão a chave procurada
a resposta que busco à confusão mortal
da língua que de ti e das coisas se afasta
Pedes a chave real para voltar à casa
e o nada
como a nuvem envolve a tua fala.

[GASTÃO CRUZ (1941)]
[Os Poemas (1960 - 2006)]
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

[DO CÓMICO]

Do cómico ao cósmico
fomos, viemos.
O pé do campeão
cortou a nossa meta.

[LUIZA NETO JORGE (1939 - 1989)]
(A Lume)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

terça-feira, 14 de abril de 2015

PERIGO DE VIDA

É grande o risco da palavra no tempo
maior mesmo talvez que no mar
Eu fui à margem do dia despedir um amigo
e não houve no cais
iniciativa verbal que edificasse
uma só tenda para o nosso coração
Éramos peregrinos
que deixam a saudade de turistas
ausentes na rua de outono
Morríamos contra a curva dos dias
a morte rotativa e provisória

Tivesse a própria palavra lábios
e nenhum clima poderia
arrefecer-lhe o coração
Tivesse ela lábios e não seria
tão grave o risco no tempo e no mar

[RUY BELO (1933 – 1978)]
(Todos os Poemas)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 5 de abril de 2015

[À ESQUERDA)

À esquerda e a meia altura da folha colocada
na vertical, o artista desenhou um pulso
com a sua mão articulada, deitada aberta para trás.
Deixou-se ali à espera de algo que viria
nela poisar, apoiar-se, confiante, nela. E veio.
E agora está lá desde sempre: uma cabeça feminina
- firme e desenhada com a minúcia da ternura -
com aquele olhar
velado, em frente
que dá a ilusão de ser a ti que olha.

[MANUEL GUSMÃO (1945)]
(Pequeno Tratado das Figuras)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

sábado, 4 de abril de 2015

[O SOL VAI ALTO]

O sol vai alto
é cedo
a aragem forte
limpo, o céu
correm os pensamentos
colam-se à mente
a alma se destrói
nada rejuvenesce
fóssil é o ciclo
a mudança não aparece
desfalece a vontade
se definha o corpo
não pára, o tempo
o dia, desaparece
chega a noite
negra é a cor
os desejos, pintados de breu
nada se realiza
o sonho desliza
alguém acorda
para bem de um angustiado ser.


[CARLOS SOUSA RAMOS – 04.04.2015]

sexta-feira, 3 de abril de 2015

[JÁ FLAMEJA]

Já flameja a melancia. A noite
cai mais densa. E tu regressas
um tanto triste ao meu ardor.

[SANDRO PENNA (1906 - 1977)]
(No Brando Rumor da Vida)
(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

[A MÚSICA]

  A música une, os costumes separam. Pela união origina-se a amizade dos homens entre si, pela separação a consideração de uns pelos outros. Quando a música alcança uma importância demasiada, há negligência. Quando os costumes predominam em demasia, quebra-se o apreço e surge o alheamento.

[HUGO VON HOFMANNSTHAL (1874 – 1929)]
(Livro dos Amigos)
(tradução e prefácio de José A. Palma Carlos)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A HERANÇA

Da última vez que morri (e, querida, morro
Tantas vezes quantas de ti me aparto)
Ainda que tenha sido há uma hora apenas,
E as horas dos amantes sejam uma eternidade,
Consigo recordar, que eu
        Disse algo, e concedi algo
Que, apesar de morto me fez voltar, e obrigou a ser
O meu próprio executor e herança.

Ouvi-me falar: <<Diz-lhe já
        Que eu>> (ou seja tu, não eu)
<<Me matou>>; e quando me senti morrer
Deliberei enviar o meu coração depois de ter partido.
Mas – infeliz! – não encontrei lá nenhum,
        Quando me abri e procurei no sítio onde se guardam.
Matou-me outra vez que eu, sempre sincero
Em vida, na minha última vontade te defraudasse.

Se bem que encontrei algo semelhante a um coração,
        Mas tinha cores e cantos.
        Não era bom, nem era mau,
Não era fiel a ninguém, e alguns o partilhavam.
O melhor que se podia arranjar por arte
        Parecia; por isso, triste por nossas perdas,
Pretendi mandar este coração em vez do meu.
Mas oh, nenhum homem o podia segurar, porque era o teu.

[JOHN DONNE (1572 – 1631)
(Poemas Eróticos)
(tradução de Helena Barbas)

(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

terça-feira, 31 de março de 2015

[O POETA]

O Poeta precisamente só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo.

[ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928 - 1953)]
(Poesia)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

segunda-feira, 30 de março de 2015

A ÁRVORE DA VIDA

A Árvore da Vida é adornada de belas flores
E em seu redor perfilam-se as mais garbosas hostes.
A sua crista domina o espaço imenso
E as planuras do céu recebem os frutos maduros.

Na ramaria, em glória pousa um bando de
esplendorosas aves
E as aves entoam  cânticos de perfeita harmonia.
As folhas não secam e as flores não murcham
E antes crescem sua beleza e abundância.

Belo é o bando das aves que guarda a árvore
Luminosas as cores brilhando em milhares de penas.
Sem temor nem pecado em serena alegria
Por cada pena as aves cantam mil melodias.

[IRLANDÊS - AUTOR DESCONHECIDO ( FINAL DO SÉCULO X)]
( in O Grito do Gamo - poemas celtas da fé e do sagrado)
(tradução de José Domingos Morais)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

domingo, 29 de março de 2015

PORTAS FECHADAS

As sombras repetem-se
e chegam trémulas
ao pé das cidades.
Ninguém quer abrir as portas
com medo da epidemia.

O sangue desce das montanhas
e interna-se nos hospitais.
Nos quartéis choram os cavalos
e não querem ouvir falar de guerra,
têm más recordações,
pensam nas pradarias
e nas suas companheiras de amor.
Os cavalos são ternos
e olham com dor para os torturados.

De noite ouvem os gemidos
e os seus cascos batem
para espantar os mortos.

Assim é agora a epidemia do sangue.
Sobre os ombros dos vinte anos
a morte cruel caminha e é estrondo,
chama ou cinza arrastada pelo vento.

[MATILDE ESPINOSA (1910 – 2008)]
[in Um País que Sonha – cem anos de poseis colombiana (1865 – 1964)]
(selecção e prólogo de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice)

(in Poemário Assírio & Alvim 2014)

sábado, 28 de março de 2015

[O MILAGRE]

O milagre é a preguiça de Deus, ou, antes, a preguiça que Lhe atribuímos, inventando o milagre.
                                                                                          BERNARDO SOARES

[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim, 2014)

sexta-feira, 27 de março de 2015

[O HOMEM PERFEITO]

O Homem perfeito deve viver, por assim dizer, em diversos lugares e em vários Homens, simultaneamente – é necessário que lhe estejam constantemente presentes múltiplos acontecimentos e um círculo mais vasto. Assim se forma, então, a verdadeira e grandiosa presença do espírito – que faz do Homem um verdadeiro cidadão do mundo e o estimula e fortalece em cada momento da sua vida, através das mais benéficas associações e o coloca na clara disposição de uma actividade lúcida.

[NOVALIS (1772 - 1801)]
(Fragmentos de Novalis)
(selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

quinta-feira, 26 de março de 2015

COMO COMEÇOU TUDO ISTO

Como começou tudo isto, e porque estou aqui
Neste balcão arqueado com a sua pintura castanha a desfazer-se?
Papegaai, Mezcal, Hennessey, Cerveza,
Duas escarradeiras viscosas, sem companhia a não ser o medo:
Medo da luz, da Primavera, do lamento
Das aves, e dos autocarros voando para longínquas paragens,
E dos estudantes que vão às corridas
E das raparigas que saltam com o vento nas suas caras,
Mas sem companhia, sem companhia a não ser o medo:
Medo da fonte que canta e de todas as flores
Que conhecem o sol e são meus inimigos.
E estar horas mortas?

[MALCOLM LOWRY (1909 - 1957)]
(As Cantinas e Outros Poemas de Álcool e do Mal)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013