Deus é o existirmos e isto não ser tudo.
Bernardo Soares
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
UMA TENTATIVA DE PARTILHAR POEMAS, UM POR DIA. CORREU BEM EM 2012. NÃO CORREU BEM EM 2013 E 2014. SERÁ QUE ESTE ANO DE 2015 É ESPECIAL E FARÁ COM QUE, DE NOVO, SE CUMPRA O DESEJADO?
quinta-feira, 23 de abril de 2015
quarta-feira, 22 de abril de 2015
[A CORAGEM]
A coragem que
vence o medo tem mais elementos de grandeza que aquele que o não tem. Uma
começa interiormente; outra é puramente exterior. A última faz frente ao
perigo; a primeira faz frente, antes de tudo, ao próprio temor dentro da sua
alma.
[FERNANDO PESSOA
(1888 – 1935)]
(Aforismos e
Afins)
(edição e
prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário
Assírio & Alvim 2014)
terça-feira, 21 de abril de 2015
[AS FLORES NASCEM]
As flores nascem, amadurecem, completam-se,
abrem as corolas.
- De dentro de ti saem as flores do canto;
derrama-las sobre os homens, sobre eles as esparzes;
tu és um cantor!
- Fruí do canto, todos vós,
fruí, dançai, entre as flores respira o canto;
e eu, cantor, respiro no meu canto!
[América, Aztecas]
(versão de Herberto Helder)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
abrem as corolas.
- De dentro de ti saem as flores do canto;
derrama-las sobre os homens, sobre eles as esparzes;
tu és um cantor!
- Fruí do canto, todos vós,
fruí, dançai, entre as flores respira o canto;
e eu, cantor, respiro no meu canto!
[América, Aztecas]
(versão de Herberto Helder)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
segunda-feira, 20 de abril de 2015
[ONDE TERÁ COMEÇADO]
Onde terá começado a
metalização da fala?
uma porta em alvenaria
dá acesso
à eira de misteriosos e
profundos limos
onde terei esquecido a
cicatriz azul da escrita?
uma flor invade os veios
secos da pedra
incendeia-se antes de se
diluir na poeira
onde terei dado de beber
à melancolia da
há pistas estreitas de
animal ferido pelas paredes memória?
o sangue transmutado em
raríssimo metal
faz do coração e das
veias a possível mina
onde vibrará a selvagem
luminosidade dos pulsos?
dentro do sonho
segui-las-emos ao amanhecer
onde se esconderá o
diminuto rosto ainda vivo?
insondáveis são as
catástrofes da alma
e da loucura que já não
nos prende um ao outro
que destino nos revela a
mão sem linha da vida?
escuto o bater do tempo
sob as pálpebras
e o terrível som da
máquina de escrever
de <<Uma Existência de Papel>>: Os Dias Sem
Ninguém, 1984/85
[AL BERTO (1948 – 1997)]
(Vigília)
(in Poemário Assírio
& Alvim 2013)
domingo, 19 de abril de 2015
O PERFUME PRECIOSO (Lc 7,36-50)
Havia um vaso de perfume
em barro branco
e a mulher que se colocou de gatas
radiante por poder exibir a farta cabeleira
Mas ao quebrá-lo daquele modo aos pés do hóspede
misturou o nardo imprevistamente
com o cheiro de uma mulher que chora
O anfitrião especado observava, sem pronunciar um som
o mestre, porém, olhou-a com os seus olhos de cão meigo
a vagabundagem e a pobreza
eram direitos de quem entrou e saiu das trevas
para fazer da infelicidade um uso
Recordarei sempre aquele momento
perfeito fio de prumo
que indica o centro da terra
[JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA (1965)]
(Estação Central)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
em barro branco
e a mulher que se colocou de gatas
radiante por poder exibir a farta cabeleira
Mas ao quebrá-lo daquele modo aos pés do hóspede
misturou o nardo imprevistamente
com o cheiro de uma mulher que chora
O anfitrião especado observava, sem pronunciar um som
o mestre, porém, olhou-a com os seus olhos de cão meigo
a vagabundagem e a pobreza
eram direitos de quem entrou e saiu das trevas
para fazer da infelicidade um uso
Recordarei sempre aquele momento
perfeito fio de prumo
que indica o centro da terra
[JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA (1965)]
(Estação Central)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
sexta-feira, 17 de abril de 2015
ÁRVORE CINZENTA
No ribeiro quase seco
uma árvore
atormenta minha alma
creio que de lá
parte para anunciar a noite
o voo sonolento do noitibó
[MÁRIO RUI DE OLIVEIRA (1973)]
(Bairro Judaico)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
uma árvore
atormenta minha alma
creio que de lá
parte para anunciar a noite
o voo sonolento do noitibó
[MÁRIO RUI DE OLIVEIRA (1973)]
(Bairro Judaico)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
quinta-feira, 16 de abril de 2015
A CHAVE
Deixo os mundos o das
palavras e o mundo
dos sinais que são os seres reais
confundirem-se
no meu presente dúbio procurando
para o poema um tema talvez desnecessário
Do meu tempo farão a chave procurada
a resposta que busco à confusão mortal
da língua que de ti e das coisas se afasta
Pedes a chave real para voltar à casa
e o nada
como a nuvem envolve a tua fala.
[GASTÃO CRUZ (1941)]
[Os Poemas (1960 - 2006)]
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
palavras e o mundo
dos sinais que são os seres reais
confundirem-se
no meu presente dúbio procurando
para o poema um tema talvez desnecessário
Do meu tempo farão a chave procurada
a resposta que busco à confusão mortal
da língua que de ti e das coisas se afasta
Pedes a chave real para voltar à casa
e o nada
como a nuvem envolve a tua fala.
[GASTÃO CRUZ (1941)]
[Os Poemas (1960 - 2006)]
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
quarta-feira, 15 de abril de 2015
[DO CÓMICO]
Do cómico ao cósmico
fomos, viemos.
O pé do campeão
cortou a nossa meta.
[LUIZA NETO JORGE (1939 - 1989)]
(A Lume)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
fomos, viemos.
O pé do campeão
cortou a nossa meta.
[LUIZA NETO JORGE (1939 - 1989)]
(A Lume)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
terça-feira, 14 de abril de 2015
PERIGO DE VIDA
É grande o risco da
palavra no tempo
maior mesmo talvez que
no mar
Eu fui à margem do dia
despedir um amigo
e não houve no cais
iniciativa verbal que
edificasse
uma só tenda para o
nosso coração
Éramos peregrinos
que deixam a saudade de
turistas
ausentes na rua de
outono
Morríamos contra a curva
dos dias
a morte rotativa e
provisória
Tivesse a própria
palavra lábios
e nenhum clima poderia
arrefecer-lhe o coração
Tivesse ela lábios e não
seria
tão grave o risco no
tempo e no mar
[RUY BELO (1933 – 1978)]
(Todos os Poemas)
(in Poemário Assírio
& Alvim 2013)
domingo, 5 de abril de 2015
[À ESQUERDA)
À esquerda e a meia altura da folha colocada
na vertical, o artista desenhou um pulso
com a sua mão articulada, deitada aberta para trás.
Deixou-se ali à espera de algo que viria
nela poisar, apoiar-se, confiante, nela. E veio.
E agora está lá desde sempre: uma cabeça feminina
- firme e desenhada com a minúcia da ternura -
com aquele olhar
velado, em frente
que dá a ilusão de ser a ti que olha.
[MANUEL GUSMÃO (1945)]
(Pequeno Tratado das Figuras)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
na vertical, o artista desenhou um pulso
com a sua mão articulada, deitada aberta para trás.
Deixou-se ali à espera de algo que viria
nela poisar, apoiar-se, confiante, nela. E veio.
E agora está lá desde sempre: uma cabeça feminina
- firme e desenhada com a minúcia da ternura -
com aquele olhar
velado, em frente
que dá a ilusão de ser a ti que olha.
[MANUEL GUSMÃO (1945)]
(Pequeno Tratado das Figuras)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
sábado, 4 de abril de 2015
[O SOL VAI ALTO]
O
sol vai alto
é
cedo
a
aragem forte
limpo,
o céu
correm
os pensamentos
colam-se
à mente
a
alma se destrói
nada
rejuvenesce
fóssil
é o ciclo
a
mudança não aparece
desfalece
a vontade
se
definha o corpo
não
pára, o tempo
o
dia, desaparece
chega
a noite
negra
é a cor
os
desejos, pintados de breu
nada
se realiza
o
sonho desliza
alguém
acorda
para
bem de um angustiado ser.
[CARLOS
SOUSA RAMOS – 04.04.2015]
sexta-feira, 3 de abril de 2015
[JÁ FLAMEJA]
Já flameja a melancia. A noite
cai mais densa. E tu regressas
um tanto triste ao meu ardor.
[SANDRO PENNA (1906 - 1977)]
(No Brando Rumor da Vida)
(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
cai mais densa. E tu regressas
um tanto triste ao meu ardor.
[SANDRO PENNA (1906 - 1977)]
(No Brando Rumor da Vida)
(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
quinta-feira, 2 de abril de 2015
[A MÚSICA]
A música
une, os costumes separam. Pela união origina-se a amizade dos homens entre si,
pela separação a consideração de uns pelos outros. Quando a música alcança uma
importância demasiada, há negligência. Quando os costumes predominam em
demasia, quebra-se o apreço e surge o alheamento.
[HUGO VON HOFMANNSTHAL (1874 – 1929)]
(Livro dos Amigos)
(tradução e
prefácio de José A. Palma Carlos)
(in Poemário
Assírio & Alvim 2013)
quarta-feira, 1 de abril de 2015
A HERANÇA
Da
última vez que morri (e, querida, morro
Tantas
vezes quantas de ti me aparto)
Ainda
que tenha sido há uma hora apenas,
E
as horas dos amantes sejam uma eternidade,
Consigo
recordar, que eu
Disse algo, e concedi algo
Que,
apesar de morto me fez voltar, e obrigou a ser
O
meu próprio executor e herança.
Ouvi-me
falar: <<Diz-lhe já
Que eu>> (ou seja tu, não eu)
<<Me
matou>>; e quando me senti morrer
Deliberei
enviar o meu coração depois de ter partido.
Mas
– infeliz! – não encontrei lá nenhum,
Quando me abri e procurei no sítio onde
se guardam.
Matou-me
outra vez que eu, sempre sincero
Em
vida, na minha última vontade te defraudasse.
Se
bem que encontrei algo semelhante a um coração,
Mas tinha cores e cantos.
Não era bom, nem era mau,
Não
era fiel a ninguém, e alguns o partilhavam.
O
melhor que se podia arranjar por arte
Parecia; por isso, triste por nossas
perdas,
Pretendi
mandar este coração em vez do meu.
Mas
oh, nenhum homem o podia segurar, porque era o teu.
[JOHN
DONNE (1572 – 1631)
(Poemas
Eróticos)
(tradução
de Helena Barbas)
(in
Poemário Assírio & Alvim 2013)
terça-feira, 31 de março de 2015
[O POETA]
O Poeta precisamente só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo.
[ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928 - 1953)]
(Poesia)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
[ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928 - 1953)]
(Poesia)
(in Poemário Assírio & Alvim 2014)
segunda-feira, 30 de março de 2015
A ÁRVORE DA VIDA
A Árvore da Vida é adornada de belas flores
E em seu redor perfilam-se as mais garbosas hostes.
A sua crista domina o espaço imenso
E as planuras do céu recebem os frutos maduros.
Na ramaria, em glória pousa um bando de
esplendorosas aves
E as aves entoam cânticos de perfeita harmonia.
As folhas não secam e as flores não murcham
E antes crescem sua beleza e abundância.
Belo é o bando das aves que guarda a árvore
Luminosas as cores brilhando em milhares de penas.
Sem temor nem pecado em serena alegria
Por cada pena as aves cantam mil melodias.
[IRLANDÊS - AUTOR DESCONHECIDO ( FINAL DO SÉCULO X)]
( in O Grito do Gamo - poemas celtas da fé e do sagrado)
(tradução de José Domingos Morais)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
E em seu redor perfilam-se as mais garbosas hostes.
A sua crista domina o espaço imenso
E as planuras do céu recebem os frutos maduros.
Na ramaria, em glória pousa um bando de
esplendorosas aves
E as aves entoam cânticos de perfeita harmonia.
As folhas não secam e as flores não murcham
E antes crescem sua beleza e abundância.
Belo é o bando das aves que guarda a árvore
Luminosas as cores brilhando em milhares de penas.
Sem temor nem pecado em serena alegria
Por cada pena as aves cantam mil melodias.
[IRLANDÊS - AUTOR DESCONHECIDO ( FINAL DO SÉCULO X)]
( in O Grito do Gamo - poemas celtas da fé e do sagrado)
(tradução de José Domingos Morais)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
domingo, 29 de março de 2015
PORTAS FECHADAS
As sombras repetem-se
e chegam trémulas
ao pé das cidades.
Ninguém quer abrir as
portas
com medo da epidemia.
O sangue desce das
montanhas
e interna-se nos
hospitais.
Nos quartéis choram os
cavalos
e não querem ouvir
falar de guerra,
têm más recordações,
pensam nas pradarias
e nas suas
companheiras de amor.
Os cavalos são ternos
e olham com dor para
os torturados.
De noite ouvem os
gemidos
e os seus cascos batem
para espantar os
mortos.
Assim é agora a
epidemia do sangue.
Sobre os ombros dos
vinte anos
a morte cruel caminha
e é estrondo,
chama ou cinza
arrastada pelo vento.
[MATILDE ESPINOSA
(1910 – 2008)]
[in Um País que Sonha –
cem anos de poseis colombiana (1865 – 1964)]
(selecção e prólogo de
Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice)
(in Poemário Assírio
& Alvim 2014)
sábado, 28 de março de 2015
[O MILAGRE]
O milagre é a preguiça de Deus, ou, antes, a preguiça que Lhe atribuímos, inventando o milagre.
BERNARDO SOARES
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim, 2014)
BERNARDO SOARES
[FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)]
(Aforismos e Afins)
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)
(in Poemário Assírio & Alvim, 2014)
sexta-feira, 27 de março de 2015
[O HOMEM PERFEITO]
O
Homem perfeito deve viver, por assim dizer, em diversos lugares e em vários
Homens, simultaneamente – é necessário que lhe estejam constantemente presentes
múltiplos acontecimentos e um círculo mais vasto. Assim se forma, então, a
verdadeira e grandiosa presença do espírito – que faz do Homem um verdadeiro
cidadão do mundo e o estimula e fortalece em cada momento da sua vida, através
das mais benéficas associações e o coloca na clara disposição de uma actividade
lúcida.
[NOVALIS (1772 - 1801)]
(Fragmentos de Novalis)
(selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)
quinta-feira, 26 de março de 2015
COMO COMEÇOU TUDO ISTO
Como começou tudo isto, e porque estou aqui
Neste balcão arqueado com a sua pintura castanha a desfazer-se?
Papegaai, Mezcal, Hennessey, Cerveza,
Duas escarradeiras viscosas, sem companhia a não ser o medo:
Medo da luz, da Primavera, do lamento
Das aves, e dos autocarros voando para longínquas paragens,
E dos estudantes que vão às corridas
E das raparigas que saltam com o vento nas suas caras,
Mas sem companhia, sem companhia a não ser o medo:
Medo da fonte que canta e de todas as flores
Que conhecem o sol e são meus inimigos.
E estar horas mortas?
[MALCOLM LOWRY (1909 - 1957)]
(As Cantinas e Outros Poemas de Álcool e do Mal)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013
Neste balcão arqueado com a sua pintura castanha a desfazer-se?
Papegaai, Mezcal, Hennessey, Cerveza,
Duas escarradeiras viscosas, sem companhia a não ser o medo:
Medo da luz, da Primavera, do lamento
Das aves, e dos autocarros voando para longínquas paragens,
E dos estudantes que vão às corridas
E das raparigas que saltam com o vento nas suas caras,
Mas sem companhia, sem companhia a não ser o medo:
Medo da fonte que canta e de todas as flores
Que conhecem o sol e são meus inimigos.
E estar horas mortas?
[MALCOLM LOWRY (1909 - 1957)]
(As Cantinas e Outros Poemas de Álcool e do Mal)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013
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